
Foto de autor não identificado, década 1950, à esquerda o sobradinho de Dona Albertina Melo, foto postado por Helder Marques no Cyber-Macau em 2012
As lembranças foram avivando durante uma conversa com a Professora Terezinha Bezerra. Disse-me ela que nos sessenta costumava ir com as amigas, à tardinha, até a Praça da Conceição ouvir Albertina Melo ao piano. Albertina morava num sobradinho na Rua São José, esquina com o Beco da Matriz e frequentemente brindava os que estavam na Praça da Conceição, naquelas tardes evanescentes, com Royal Cinema de Tonheca Dantas, essa valsa harmoniosa com o condão de nos levar à Nirvana. O piano, Albertina vendeu anos depois para o médico Doutor Amaury que presenteou sua mulher, Maria do Socorro, filha do mestre Avelino, que por muitos anos foi o maestro da Banda de Música de Macau. Royal Cinema ficou encravado nas minhas memórias de Macau por dois motivos. Ouvi-a pela primeira vez em manhã de domingo em que todos os macauenses estavam recolhidos aos seus cultos. Chegara a pouco em Macau e morava numa casinha agradável na São José alugada a Mariquinha, recuada, com varandinha e um pé de cajá. Eu cruzava o largo do Mercado Velho, à época abandonado e que o espírito zombeteiro do macauense chamava de Gabiruzão, quando ouvi um saxofone límpido com as notas belíssimas de uma valsa com sabor de Amarcord e sentei-me no meio fio e fiquei a ouvir e recordar. Algum tempo depois, em manhã prometendo dia claro, tive novamente a sensação de Amarcord.

Foto Clarissa Guerra, 2010, Barreiras, arq. o baú de Macau
Dormira pela primeira vez na casa que mandara construir em Barreiras às margens do Atlântico, na restinga luminosa de praia, mangues e gamboas e imaginava sonhando ao ouvir aquela valsa ao longe, belíssima. Alguém de muita sensibilidade abria os domingos com Royal Cinema do alto da torre da igrejinha de São Sebastião, anunciando o culto religioso. Belas lembranças. Mas o que eu não sabia era que Royal Cinema tinha letra. Isso só fiquei sabendo agora em 2012, quando Dona Hilda Paiva, 96 anos, Mal de Parkinson e outras doenças, recordou uma boa parte da poesia à altura da música, que de acordo com a pesquisadora Leide Câmara [Dicionário da Música Potiguar]é do poeta Joaquim Bezerra Júnior. De Claudio Guerra para o baú de Macau
A poesia de Bezerra Júnior para Royal Cinema [Conforme lembrado por Dona Hilda]
Anjo do céu flor de minh’alma / Porque me deixas no deserto, amor / Vivo, chorando entre ruínas, / exposto ao dissabor, de sua ausência atroz, / eu fico a soluçar.
Ai do pranto que derramo, / Jamais teu pobre gaturando vai / Gemer o astro dos meus sonhos
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Refrão: Vai sorrindo / Me dizias / Oh! meu astro / de poesia / Só a morte / roubará / nosso amor / nosso amor / que será
Mas o tempo / foi passando / para o nosso / amor constante / entre as luzes / do martírio /
me deixastes / me deixastes.
Acesse e veja dois filmes de Royal Cinema no Youtube, o primeiro Dona Hilda cantando e o segundo a magistral interpretação de Dionizio Lima no saxofone.
http://www.youtube.com/watch?v=GZF14bqCHZE
http://www.youtube.com/watch?v=6mpcFONnnlU&feature=related