O baú de Macau
O baú de Macau
As memórias
Meio Ambiente
Rádios livres
Literatura e Artes
A B C D
E F G H
I J K L
M N O P
Q R S T
U V X Y Z
Textos
E F G H

Obra: Sínteses; autor: Edinor Avelino; edição comemorativa ao centenário de nascimento do poeta Edinor Avelino. Macau[RN]; 1998; Prefeitura Municipal de Macau.

Trecho do prefácio do escritor Walter Wanderley em 1968

   “O que mais poderia desejar para mim de bom e de agradável, no terreno das idéias, de que figurar neste livro de Edinor Avelino – o poeta máximo de Macau, a terra em que nasci. O que mais poderia almejar, nos domínios da inteligência, de que comentar este livro, que é em essência a alma de um macauense cantando suas canções mais ternas e queridas.

    Desde menino, no Macau dos meus sonhos, que admiro o Edinor. Seus versos estavam sempre nos meus cadernos escolares. Eu os recitava no Grupo Escolar, sentindo em cada imagem, em cada palavra do poeta, sua alma a vibrar nos costumeiros transbordamentos emocionais, quer se refira ao sertão, quer quando dizia as belezas naturais do seu chão, nas suas elegias ao amor ou ao referir-se a uma efeméride nacional. Lá estava sempre o poeta dos “grandes vôos do meu pensamento” a dizer tão bem aquelas coisas na magia dos seus poemas”. 

 
Autor: Edmilson Siqueira; Obras: Renascendo das Cinzas [1999] Imperial Casa Editora da Casqueira 
 
 

Obra: A Ação Política do PCB em Natal na Resistência Democrática [ 1964-1984] [Monografia apresentada ao Departamento de CHLA, da UFRN em 2006]. RN/BSE-CCHLA -  CDU 329[813,2]; Ed. do Autor; Enc. espiral.

Autor: Elson Cunha Batista 

                                   

Resumo[excerto] 

 

No Rio Grande do Norte, em particular na cidade de Natal, O PCB nasce no momento em que a classe operária ainda era muito incipiente, mesmo assim o Partido tem uma influência marcante na formação do movimento sindical, principalmente nas cidades portuárias. Com a eclosão do movimento revolucionário de 1935, o PCB enfrenta muitas perseguições e prisões em todo o Brasil. Foi uma forma de desarticular o Partido. Isso só irá mudar com os reflexos do resultado do pós-guerra que possibilita o retorno da democracia no Brasil em 1946. Em Natal, o PCB adota uma política de alianças que unia todos os setores de oposição, de 1959 a 1964. Em 1962, ocorre a defecção dentro do PCB, resultando no surgimento do PC do B e outras correntes políticas. Com o Golpe militar de 1º de abril de 1964 o PCB mais uma vez sofrerá as mais cruéis formas de perseguições, tortura e morte de seus quadros, mesmo assim encontra forças para lutar contra o regime militar.

 

Obra: Balões de Ensaio; autor: Ezequiel Wanderley[1872-1933] do Centro Polymathico; 1919, Typografia Commercial – J. Pinto & Cia – Natal – 1919 – edição fac-similar; Sebo Vermelho – Natal, 2009

Orelha do livro por Abimael Silva, sebista e editor

A volta dos Balões de Ensaio

Há noventa anos o jornalista, teatrólogo, cronista, poeta, agitador cultural e dandi Ezequiel Wanderley lançava Balões de Ensaio, reunindo crônicas, pequenos ensaios e depoimentos sobre o Rio Grande do Norte e algumas personalidades da época: Antonio Marinho, Gothardo Neto, Pedro Velho, Nísia Floresta, natal, Macau e a origem da palavra papa-jerimum justificaria sua reedição, mas este livro tem muitas outras qualidades.

Balões de Ensaio é o primeiro livro de Ezequiel Wanderley, publicado em 1919. Está entre as grandes raridades da bibliografia norte-rio-grandense, reeditadas pelo Sebo Vermelho, em edição fac-similar e limitada, de trezentos exemplares, para estudiosos e pesquisadores de nossa história.

Filho de Luiz Carlos Lins Wanderley, primeiro médico e romancista do Rio Grande do Norte, autor de O Mistério de um Homem Rico, publicado em 1875, Ezequiel Lins Wanderley nasceu em Assu, dia 27/10/1872. Depois de Balões de Ensaio, publicou Poetas do Rio Grande do Norte, em 1922 e Meu Teatro, em 1927.

Faleceu em Natal, dia 26/11/1933, aos 61 anos, deixando excelente produção literária nos jornais de sua época, à espera de um pesquisador com faro apurado e sensibilidade poética.

Leia Notas de Viagem [Macau a Natal] no Fundo do Baú

 
 
 

  

Cárcere das Águas; autor: Fagundes de Menezes; Editora Cátedra/Pró-Memória/ INL; Rio de Janeiro; 1983. Outras obras: Nietzsche e a Mística do Super-Homem; O Vale dos Cataventos[1960]; Os Enteados de Deus[1969]; O Vagonauta; A Dissipação da Aurora [1984]; Território Livre.  

João Fagundes de Menezes nasceu em Macau [RN]. Iniciou no jornalismo em Natal [Diário de Natal e A República], e trabalhou em vários jornais de Pernambuco[Correio do Povo e Jornal do Commercio] e do Rio de Janeiro [Diário de Notícias, O Globo e Jornal do Brasil].

Orelha do livro Cárcere das Águas 

“Esse é, de fato, o cenário de ‘Cárcere das Águas’, o pano de fundo dos 12 contos que compõem este livro: as extensas orlas de areia, e salinas, a gente do mar, os pescadores, navios entrando e saindo, a saudade do mar dos velhos marinheiros, como o personagem Pisa. ‘Poucos metros quadrados de um solo flutuante a mostrar-lhe a condição de prisioneiro. Cárcere das águas’. Contos carregados de ternura pelo gênero humano, em um estilo límpido, altamente poético, um livro que se acrescenta vigorosamente à obra de Fagundes de Menezes, e à ficção brasileira”

                                                                              os Editores

Obra: Prostituição em Macau Ontem e Hoje; UFRN-PROBÁSICA - Campus de Macau - 2000 - Ed. das Autoras;  Enc.espiral.

Autoras: Fernanda Maria Bezerra, Francisca Santana, Maria das Graças Gama Oliveira, Maria Iracema B. Silva, Marilda Barros e Walquíria Souza de Oliveira.

                    Apresentação do Professor Benito Barros, da UFRN

      A 'Prostituição em Macau Ontem e Hoje' é o resultado de pesquisa realizada por alunas da disciplina Metodologia do Trabalho Científico ministrada à turma de Macau/Guamaré do Probásica/UFRN, no primeiro semestre de 2000.

      Quando propusemos o tema às alunas não houve, de início, boa acolhida. O objeto da pesquisa, por ser um tema envolto em preconceitos, provocou receio nas estudantes que teriam que esmiuçá-lo tanto quanto possível. Os temores iniciais, entretanto, dissiparam-se na medida em que elas iam desenvolvendo a pesquisa. O resultado, pois, foi este excelente trabalho apresentado em meio a outros tantos bons trabalhos que tivemos o privilégio de avaliar. A Prostituição em Macau Ontem e Hoje, ademais, causou-nos a mais viva admiração, primeiro, pela coragem e competência das alunas, depois, pelo próprio tema, que nos é demasiado caro.

        Parte do assunto, principalmente o que trata da prostituição nas décadas de 50 e 60, nos fez recordar boa parte de nossa infância, vez que apresenta uma coleção de figuras históricas e lugares famosos que a povoaram. A vida, a verdadeira vida de Macau, naquela época, transcorria nos lugares aqui lembrados, e era feita, em grande parte, pelos personagens aqui revividos. São lugares recendendo a álcool, exalando o aroma agridoce do sexo, mas, principal, trescalando o cheiro forte do sangue nas peixeiras. São ruas de intenso movimento de mulheres, bêbados e loucos. São becos que servem de tapete a uma fauna heterogênea de meretrizes e domésticas, soldados e arruaceiros, trabalhadores e vadios, adolescentes e decrépitos. São minúsculas casas cariadas pelo salitre. São quartos humildes servido de abrigos a esperanças frustradas. São sítios que encerram a galeria de meus personagens mais estimados, porquanto protagonistas duma luta feita para o esquecimento da história oficial. São heróis e heroínas que, se não recebem o merecido reconhecimento dos hipócritas, têm um lugar certo na memória dos poucos que admiram o povo e sua luta. São homens rudes e mulheres valentes que constroem, no dia-a-dia, a trágica epopéia dos miseráveis. São nomes que se traduzem em palavras como: luta, sofrimento, coragem, altivez e dignidade. É um historia que se escreve com suor, álcool, esperma e sangue.

         Estão, pois, de parabéns as meninas que souberam livrar do cativeiro da desmemoria a Macau que os jovens não conheceram e os mais velhos teimam em esquecer. E foram capazes, sobretudo, de, com maestria, cotejar e sofrer dos que freqüentaram aquelas páginas de outrora com o infortúnio dos que sobrevivem na miséria de hoje.

         É com desmedido orgulho e não menor satisfação que apresentamos A Prostituição em Macau Ontem e Hoje.

                                                                   Macau, 26/12/2000

 
Obra: A cidade e os homens das salinas; disponível em: http://snh2007.anpuh.org/resources/content/anais/Francisco%20Carlos%20de%20Sousa.pdf
Autor: Francisco Carlos Oliveira de Sousa

A cidade e os homens das salinas

RESUMO:Na segunda metade do século XX, o trabalho sazonal nas salinas de Macau, cidade situada no litoral do Rio Grande do Norte, atraía milhares de trabalhadores para o município. No verão, muitos desses migrantes eram oriundos das atividades agrícolas nas povoações circunvizinhas. A labuta insalubre no território das salinas mesclou valores de dois mundos distintos: o urbano e o rural. Nesse contexto, costumes e tradições receberam consideráveis influências com repercussões no âmbito das identidades”

Minhas tamataranas: linhas amarelas – Memórias; Floriano Bezerra de Araújo; Natal, dezembro de 2009; Sebo Vermelho; ISBN: 978-85-910104-0-0

 

FLORIANO BEZERRA DE ARAÚJO E A LUTA POR DIREITOS

 

Drª Maria da Conceição Fraga, Professora do Departamento e do Programa de Pós graduação em História/UFRN

 

            Quero,  inicialmente, manifestar o prazer e a honra de apresentar ao leitor Floriano Bezerra de Araújo e sua importância para a História Política de Macau, do Rio Grande do Norte e do Brasil.

            Floriano Bezerra de Araújo é um homem de uma família simples, de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. Nasceu em Assu, foi naturalizado em Afonso Bezerra, tendo feito toda a sua trajetória política em Macau. Seus gestos e suas lutas ganham força, quando analisados no contexto em que ocorreram, bem como, o modo, o teor de suas reivindicações e os atores com os quais ele se juntou para conduzir a mobilização por direitos sociais e políticos.

            O ex-sindicalista e ex-deputado teve, ainda, na trajetória de sua família [pai e irmãos] a marca da migração para a Amazônia brasileira ocorrida nos anos 1940 e 1950 em busca de trabalho e melhores condições de vida [como diz a historiografia, os Soldados da Borracha!]. Após o retorno a Macau, seu pai, liderança política destacada na região, pioneiro na organização dos trabalhadores tornou-se prefeito da cidade e ganhou respeito e admiração da população.

            Hannah Arendt, filósofa alemã, disse que os homens, ao agirem, mudam o mundo e mudam a si. Eis, pois, o que fez o ex-sindicalista e ex-deputado, ao contribuir para que os salineiros se organizassem e lutassem por seus direitos trabalhistas em Macau. Isso mudou a história de sua cidade e de seus estado, transformando a aparente vida pacata em um cenário de luta. Sua vida, também, aparentemente pacata, configurou-se em um personagem importante para os trabalhadores e para o Estado Militar Autoritário Brasileiro, nos Anos de Chumbo.

            Macau, pela importância econômica à época, tinha um expressivo número de trabalhadores nas salinas, chegando a influenciar em toda região salineira [Areia Branca, Grossos, por exemplo]; era uma cidade onde giravam volumes expressivos de recursos; um lugar privilegiado que possuía escola voltada, especificamente, para ensinar os filhos dos trabalhadores da produção de sal; uma comunidade que tinha seus estabelecimentos comerciais como referência, na região. Tudo isso tornava a Macau um ambiente propício ao debate político e o cenário em que surgiu a liderança do ex-sindicalista e ex-deputado.

            Floriano Bezerra de Araújo, ao organizar os trabalhadores e lutar por direitos, chamava a atenção para os problemas econômicos, políticos e sociais da sociedade; despertava os trabalhadores para a força que a categoria adquire, quando junta; despertava também as comunidades vizinhas para a possibilidade de que aqueles que lutam, conquistam direitos, dava visibilidade aos problemas da região e dos trabalhadores. Este percurso e esta atuação fizeram do protagonista, liderança sindical e filho de homem humilde e também liderança política, Venâncio Zacarias de Araújo, uma ameaça à ordem estabelecida. A experiência adquirida no movimento sindical o tornou referência na região e o fez assumir uma vaga em uma das instâncias mais expressivas de poder, a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Lá, em outro patamar, o ex-deputado representava seus pares, os trabalhadores, no entanto, teve seu mandato interrompido pela repressão. Esta trajetória política, de sindicalista a deputado é uma página obrigatória na história do sindicalismo do Estado e do País. Sua vivencia em fóruns nacionais de trabalhadores, destacadamente no Rio de Janeiro, bem como o intercâmbio como outras lideranças de expressão nacional o fez ocupar papel destacado da representação política no estado.

            Sendo assim, falar do sindicalismo dos anos 1960 em Macau, no Rio Grande do Norte, bem como da Assembléia Legislativa do Estado é construir uma página especial na História Política do Brasil e o registro da passagem de um dos principais protagonistas dessa trama que é Floriano Bezerra de Araújo. Diante do exposto, convido o leitor a saborear esta narrativa e com ela [re]ler, [re]conhecer, [re]contar a História do País à luz do que nos ensinou Maurice Halbachws a memória individual como fragmento da memória coletiva, a trajetória de Floriano Bezerra se confundindo com a trajetória dos sindicalistas. Ou, como o fez Michel Pollak que definiu a memória subterrânea como sendo aquela que, sem situações de repressão, não pode ocupar os espaços públicos como fora o período dos governos militares no Brasil. A memória subterrânea não significa que ela não existiu, muito pelo contrário, aflora e manifesta com lágrimas e alegrias o que somente o narrador é capaz de imprimir [Walter Benjamim].

            Com a palavra, o ex-sindicalista, ex-deputado e protagonista de um momento particular e importantíssimo na História do País, do Rio Grande do Norte e de Macau, Floriano Bezerra de Araújo...”

As memórias de um brasileiro altivo: Floriano Bezerra

“Minhas tamataranas: linhas amarelas – Memórias”

 

 

Na vida, a gente perde, a gente ganha. O tempo, este amigo e inimigo é cruel. Quando vê, já passou. Ficam as recordações: boas e más. E desde sempre, o homem considera que o antes era bem melhor.  Escrever sobre memórias não é fácil. É primeira pessoa nua e crua. Eu fico nú ou não escrevo “o que preste”. Floriano Bezerra decidiu ficar nú e nos brindou com “Minhas Tamataranas: linhas amarelas – Memórias”, um livro de quem sabe contar histórias, carregado de ternura e sem ódios. E olha que Floriano teve todos os motivos do mundo para conservar ódios.

 

O livro, dividido em vinte e sete capítulos, narra suas memórias desde o quatro anos de idade – como ele mesmo diz – é a partir daí que se lembra das coisas, até seus recentes embates políticos.  As narrativas das suas lembranças do sertão, nos idos de 30 são magistrais. Nos deixa cara a cara com os cheiros de mofumbos, xiquexiques, macambiras e o canto das águas, dos nambus, das corujas e da cruviana fria, gelada.

 

Depois em Macau, num trabalho que era o sonho de muitos meninos ainda pequenos: botando água de calão. “Dava moral”. Era demonstração de força e poder. A iniciação sexual narrada sem biombos e meandros. Direto, como sempre foi sua trajetória.  Na sequência, o que esteve sempre latente na sua vida: a luta contra as desigualdades sociais. A narrativa sempre precisa de seus embates sindicais, a lembrança dos companheiros de luta, dos amigos, dos adversários, enfim, daqueles que ele considerou significativos.

 

Na vida, a gente perde, a gente ganha. Uns escolhem lutar para si mesmo. Outros escolhem lutar pelo coletivo. Floriano Bezerra escolheu o caminho da luta pelo coletivo e assim pautou sua vida. E é isso que ele registrou nesse livro de memórias. Ele é um daqueles milhares de nordestinos que não se conformaram com a opressão da classe dominante -- representado pelas oligarquias locais -- que determinaram manter o nordeste brasileiro  como um depósito de mão-de-obra barata e disponível para as necessidades do exército de reserva do capitalismo.

 

Contra a opressão e por um país livre, muitos pagaram com a vida, como o patriota Luiz Maranhão, Edson Quaresma e Emanuel Bezerra, dentre outros bravos potiguares. Mas alguns sobreviveram às torturas, às humilhações e às incompreensões, como Floriano Bezerra, Mery Medeiros e tantos outros e hoje podem contar a história. Não a história manipulada e falsificada pela ditadura. Não aquela que ainda hoje, reconhecidos torturadores e colunistas dedos-duros que vivem das sobras das mesas burguesas, ainda publicam nos jornais.

 

“Minhas tamataranas: linhas amarelas – Memórias”, não deixam margem para dúvidas, especulações ou interrogações. É um livro sem véus, como o autor.

 

Claudio Guerra, dezembro de 2009. 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Obra: Uma análise da dualidade do mercado produtor salineiro do Rio Grande do Norte; Natal; UFRN; 1987. Autor: Francisco das Chagas Paiva Filho.  
obs: não temos maiores informações. Estamos procurando este livro.
 

Obra: Presença de Oswaldo Cruz no Rio Grande do Norte; Autor: Frank Tavares Correa; Sebo Vermelho Edições; Natal, 2008. 

Carta de 22 de outubro de 1905 de Oswaldo Cruz para sua esposa.

Chegamos à barra do Assu, rio a qual está Macau, às 11 h. da manhã. Já aguardava nossa chegada o prático da barra que levou-me dois telegramas do Leão, pelos quais tive o prazer de receber notícias de vocês. A nosso encontro vieram 3 ou 4 escaleres á vela mandados pela população para receber-nos, caso o navio não pudesse transpor a barra. Não foi necessário, embora arrastando na lama, conseguimos transpor o baixio e subirmos o rio, fundeando bem defronte da cidade. Ancorados, recebemos as primeiras visitas: o médico da localidade Dr. Pedro Amorim, o Juiz de Direito Dr. Câmara, o Promotor Público, o Presidente da Intendência, o vigário, o encarregado da mesa de rendas, deputados estaduais, os mais importantes salineiros da terra, etc. ... Em terra disse-nos um dos magnatas que conheceu-me pelas caricaturas de “Malho”! jornal conhecidíssimo em todo norte. Disse-me que a cabeleira estava perfeita, faltando apenas ter presos nela alguns mosquitos! Vê que santa ingenuidade!”

 

 

Obra: O Sal Economia em Questão; Autor: Geraldo de Margela Fernandes; UFRN/CCHLA; Coleção Mossoroense, vol. 851; Natal[RN]; 1995. CDU 301.188.1: 664.41 [043.5]. [Mestrado apresentado na UFC].

Apresentação 

Este livro é resultado da pesquisa realizada para elaboração da tese de Mestrado em Sociologia do Desenvolvimento que recebeu inicialmente o título de “Operários do Sal: Dois Séculos de Exploração”, aprovada pela Universidade Federal do Ceará, em 1980.

Ela foi publicada em 1ª edição pela Coleção “Textos Acadêmicos”, patrocinada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 1982.

A sua reedição pela coleção “Humanas Letras” do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes se justifica pela atualidade das questões aqui discutidas e pela adição de tres trabalhos elaborados para conferências e publicação na imprensa local, posteriores à pesquisa. Esses textos guardam coerência com o tema central apresentado, acrescentando e atualizando pontos ao trabalho original.

O texto “A modernização da indústria salineira e a expansão da economia em Mossoró”, discute o processo de modernização ocorrido naquele setor industrial e o papel do Estado no incentivo ao processo de mecanização.

Demonstra que as mudanças implementadas ao nível tecnológico não tiveram conseqüências positivas para as populações daquela região. Como num reconhecimento do fracasso do processo modernizador no setor urbano-industrial, o Estado, nos anos 70, redirecionou seus investimentos para o setor agrícola – vale do Açu e chapada do Apodi – descartando os projetos idealizados na área industrial com o aproveitamento de matérias primas locais. Nesse sentido, não se concretizando a implantação do Pólo Químico Industrial, que contemplaria a instalação de uma refinaria de Petróleo, a conclusão da fábrica de barrilha e o aproveitamento das águas mães.

Esse redirecionamento impôs a economia do Estado à condição de exportador de matérias primas como o sal, a castanha de caju, o sisal, as frutas tropicais, a lagosta, etc.

Já o trabalho “Modernização e Pobreza: o caso de Areia Branca”, elaborado em 1989, debate a importância do Porto Continental em Areia Branca. A sua construção era justificada pela localização geográfica e pela função que poderia exercer na importação de produtos manufaturados do Centro-Sul e pela exportação de matéria prima regional, se constituindo, assim, em um elo de integração do interior do Rio Grande do Norte com o Ceará e a Paraíba. Analisa, ainda, a modernização do parque salineiro em Areia Branca e suas conseqüências para a sociedade local. Por fim, trata do projeto de implantação de um Pólo Químico Industrial na região salineira.

O Texto “A Barrilha e a Ambigüidade das Elites” analisa a transferência da fábrica de barrilha em construção na Cidade de Macau, controlada pela estatal ALCANORTE para o grupo privado FROTA OCEÂNICA do empresário Fragoso Pires. Questiona o valor pago na privatização da referida empresa e alerta para a cartelização do mercado da barrilha.

As reflexões, aqui contidas, evidenciam a nossa preocupação com os problemas da economia regional: os processo de modernização ocorridos, as questões sociais daí decorrentes e o papel exercido pelo Estado, através de agências de financiamentos ao “desenvolvimento” como a SUDENE, BNB e BNDES.

É inquestionável que foram investidas grandes somas de capital na economia salineira do Rio Grande do Norte, nos anos 60 e 70, o que contribuiu seguramente para a mecanização dos processos de trabalho. Como conseqüência dessa mecanização tivemos um elevado índice de desemprego e uma grave crise social, configurada no aumento da pobreza e da migração nesse setor da economia norte-rio-grandense.

O Estado foi um ator central nesse processo, mobilizando 75% dos recursos necessários à modernização do parque salineiro, e criando uma infra-estrutura de apoio, provocando, por conseguinte, algumas transformações: grandes grupos multinacionais ligados ao ramo da indústria química, instalados no SUDESTE, incorporaram dezenas de empresas, que, até então, estavam sob o controle de grupos locais e nacionais; eliminou dezenas de pequenas e médias empresas, dificultando o acesso desses grupos às linhas de financiamentos do Governo, retardando o asfaltamento das vias de acesso de Natal a Macau e Macau a Açu por onde essas empresas escoavam a produção para o mercado consumidor regional; construindo o Porto Ilha para o embarque do sal em navios em alto mar e definindo critérios de uso do Porto em que só os grandes grupos tinham condições de embarque.

O Estado, em conluio com as empresas, conseguiram desorganizar a classe trabalhadora, intervindo nos seus sindicatos e prendendo seus dirigentes e lideranças.

Outro ponto que merece destaque, no trabalho, é o fetiche da modernização. Grupos da elite estadual organizados em instituições como ADESG e Clubes de Serviços da região salineira promoviam encontros e seminários com o objetivo de elaborar estudos e propagar as idéias que consagravam os projetos de modernização na indústria salineira no Rio Grande do Norte como redenção de uma região.

Geraldo Margela Fernandes // Natal, 18 de agosto de 1998. 

 

 

Um Rio Grande e Macau - Cronologia da História Geral. Autor: Getúlio Moura; Editora: Imperial Casa Editora da Casqueira; Macau, 2005. Outras obras: Operações Práticas na Produção de Petróleo [1995];  Instinto Reverso [1997]; SoLua [1999]; A Escola de Macau [2004]

Trecho do prefácio do historiador Olavo Medeiros [*]

     GETÚLIO MOURA veio ao mundo em 22 de janeiro de 1962, na localidade de Tabatinga, à época pertencente ao território municipal de Pendências-RN. Atualmente, Tabatinga faz parte do município de Alto do Rodrigues. Desde os 2 anos, Getúlio reside na cidade de Macau, exerce o cargo de Técnico Ambiental na PETROBRÁS. Além das atividades profissionais de rotina, Getúlio convive com diversos “hobbies”: poesia, música, pintura, fotografia e ecologia.

    ‘UM RIO GRANDE E MACAU – CRONOLOGIA DA HISTÓRIA GERAL”  é o ensaio escrito por Getúlio Moura. O autor focaliza nas quinhentas páginas do livro, os mais variados aspectos daquele município e de toda a região de que faz parte: Viagens, Descobrimento e Colonização; Os Índios do Vale do Açu e o Litoral primitivo; Origem e Desenvolvimento de Macau; Comércio, Indústria, Sociedade e Meio Ambiente; Educação e Cultura; Comunidades de Macau; Municípios Vizinhos, Antigos Territórios de Macau;

     Considero o ensaio de Getúlio Moura, um marco na bibliografia norte-riograndense. Trata-se da melhor obra já escrita sobre aquela importante região salineira e petrolífera.

    [*]Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte,Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e Membro da Academia Norte-riograndense de Letras.

____________________________________________________________________ 

Quando pesquisava no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, por volta de 2004 para o meu romance “Ninguém para a Coréia”, conheci o grande historiador Olavo de Medeiros Filho, falecido no ano passado. Numa de nossas conversas ele falou com grande entusiasmo do livro de Getúlio Moura, afirmando que prefaciara uma das mais importantes obras da história do Rio Grande do Norte.  Olavo de Medeiros Filho deixou uma extensa obra sobre a história do Rio Grande do Norte, em especial da presença holandesa no território potiguar.                              

                                                   Claudio Guerra  em maio de 2009.

 

Qual é o Rio “Grande” do Norte?

          A “Revista Escolar, de Fortaleza, Ceará, dirigida  pelo emérito professor  Joaquim da Costa Nogueira, em seu n. 8, de fevereiro de 1926, tratando das – “Origens dos nomes dos Estados do Brasil”, asseverou:

            - -“Rio Grande do Norte – sua origem é devida ao rio  deste nome, ou Potengy, que banha o Estado”.

           Tal é, aliás, a noção que corre mundo em os diversos trabalhos  de geographia que têm ferido este ponto de nossa nomenclatura especial.

Entretanto, não me parec lógica, nem verosimil, nem justa a origem attribuida, vulgarmente ao nome deste Estado, mas, considero-a um mero equívoco, ou engano de muitos annos e muitos autores, o qual merece contradita para a devida correcção.

Há 13 annos já, formulando as “bases” dos programmas primários dos nossos grupos escolares, inclui, entre os pontos da nossa chorographia, esse do – “Rio que dá nome ao Estado”.

Suscitaram-se, no momento, algumas duvidas entre professores e estudiosos, e ao nosso Instituto Histórico e Geographico foi levada a divergencia, sustentando o saudoso historiographo, que era o dr. Vicente de Lemos, ser o Potengy o rio “grande”, ao passo que eu assegurava que o rio “grande” é o Assu [ou Açu].

Passaram-se os annos sem que fosse a duvida ventilada pela imprensa, nem houvesse qualquer conclusão segura a respeito.

Em 1923, achando-me no Rio de Janeiro e em visita ao dr. Luiz Fernandes, distincto cultorr das lettras históricas, perguntou-me elle em que “razões” me baseara para dizer que o rio Assu é que dá  nome ao Estado. Dei-lhe as “razões” [1ª e 2ª que adiante menciono], ouvidas as quaes elle me declarou que o asserto tinha toda procedência e fundamento histórico, adduzindo outros motivos que reforçam a these e a conclusão.

E, porque,  como se vê, não estou só nesta opinião, é que ouso chamar a attenção dos competentes para o ponto ora em apreço, e que reputo de muita importância para nós.

Vejamos as razões por que o Rio Assú é o rio “grande” que dá nome ao Estado:

1ª - Assù, [ou Açù] vem de Açù – [grande] hu ou u, [rio] e significa – rio grande. Contrahidas as palavras indígenas Açù e u em Açù [ou Assù] com crase, temos que Assu quer dizer – rio grande.

Potengy, porém, é expressão indígena corrompida que se originou de puti ou pitum; o primeiro quer dizer “camarão”, o segundo “fumo”. De qualquer dos dois termos indígenas, a palavra Poti-y ou gy [“rio do camarão” ou “do fumo”] passou por euphonia ou abrandamento, a soar Potingy e hodiernamente, Potengy, que, de forma alguma, quer dizer rio grande, mas rio do Camarão, ou do fumo.

2ª - O rio Assu é o maior rio que banha o Estado, atravessando-o de sul a norte e dividindo-o em duas partes bem distinctas, desde a extrema, no Jardim de Piranhas, com a Parahyba, até a sua immensa embocadura por tres ou quatro braços sobre o Oceano Atlântico, onde a costa parece deprimida pelo ímpeto das suas aguas torrenciaes, no inverno. Mas, o rio Assu também possue a maior bacia hydrographica do Estado, pois apanha todas as aguas do Seridó, inclusive o Espinharas e o Sabugy, arrecada innumeros affluentes e vai até aos divisores do Salgado, que lhe é tributário, Ceará-Mirim, Apody e vários outros, numa extensão de muitas léguas do nosso território. Forma , alem disso, o maior, mais rico e mais portentoso valle agrícola do Estado, especialmente na parte em que  se estendem as opulentas “várzeas” de Assu e Macau, municípios que  divide e irriga providencialmente.

Emquanto o Potengy é um simples affluente do Jundiahy, em que  se lança no logar “Barreiros”, município de São Gonçalo; tem suas cabeceiras nas divisas de Santa Cruz com aquelle município, que banha em quase toda a sua extensão, dividindo-o com Macahyba, até a sua barra, no Jundiahy.  Razão, pois e de sobra, tinha o DR. Luiz Fernandes quando affirmou que o rio que banha a nosa capital é o Jundiahy e não o Potengy, que é daquelle mero tributário. E basta olhar para o mappa da região para nos convencermos da verdade de tal asserção.

3ª - As 50 leguas da doação feita por El-Rei de Portugal, D. João III, ao escriptor João de Barros, eram contadas da Bahia da Traição e chegavam precisamente á foz do rio Assu, que segundo Alonso de Hojeda, Américo Vespucci e Juan de la Cosa, foi descoberto em latitude, mais ou menos certa, e chamado rio grande, porque cahia no mar por tres boccas e formava um vasto alagado.

E Gabriel Soares, no Roteiro da Costa do Brasil, refere ter feito a medição da costa desde o rio da Cruz, [provavelmente o Camocim], até o Rio Grande, cuja posição coincide, mais ou menos, com foz do rio Assú, não obstante falar adiante de um “outro rio grande”, que corresponde talvez á embocadura do Potengy, ou melhor Jundiahy, ao pé da nossa querida Capital.

Com taes razões, a ultima das quaes forneceu-me o Dr. Luiz Fernandes em apoio das duas primeiras que lhe expuzera e vinha sustentando desde 1913, parece que não se justifica a origem commumente dada ao nome deste Estado; há manifesto equivoco ou engano, que precisa ser emendado.

O Rio “Grande” do Norte é o rio Assu, e não o Potengy, que não tem significação nem importância para dar  nome ao nosso Estado.

Digam melhor e com mais segurança os que puderem.

Texto do pesquisador Nestor Lima, in Leituras Potyguares, [1933] de Antonio Fagundes, reedição do Sebo Vermelho, Natal, 2009. 

 
 

 

Obra: Humor com gosto de sal; autor: Getúlio Teixeira; Sebo Vermelho Edições; Natal, 2003.

Orelha do livro por Chiara Teixeira

Nascido em Macau no ano de 1945, Getulio Teixeira desde muito cedo manifestou seu amor à cidade. Em 1971 começou sua carreira política; por duas vezes foi eleito vereador, depois Secretário de Obras, encerrando sua vida pública em 1978 como Secretário de Educação. Em 1984, já morando na capital do Estado, o até então acadêmico de Direito envolveu-se em eventos e realizou em 5 edições, os saudosos encontros macauenses. Entre um encontro e outro foram surgindo lembranças de um tempo vivido e nunca esquecido. Causos e confissões de adolescentes e de homens feitos de histórias. Nascia assim a vontade de registrar em livro toda uma época. Em Humor com Gosto de Sal, Getúlio retrata com habilidade a saudade de muitos carnavais, de várias procissões e incontáveis embarcações. Figuras memoráveis e suas particularidades, lendas e folclores da mais genuína cidade do sal, numa linguagem simples e bem humorada que faz de Humor com Gosto de Sal uma verdadeira declaração de amor a Macau. 

 
 

Obra: A Escola de Macau; Autores: Gilberto Avelino, Horácio Paiva, Benito Barros, Getulio Moura, João Vicente Guimarães e Getúlio Vargas Maia Barros; Imperial Casa Editora da Casqueira, 2003, Macau-RN.

Prefácio de Horácio Paiva [excerto]

Às margens do tempo, e numa tarde qualquer, conversávamos eu e o meu amigo Gilberto Avelino [e isto pouco antes de sua morte] – sobre o crescente número de pessoas envolvidas hoje, em Macau, com o processo de criação literária, e sobretudo com o fazer poético. Esse fazer poético que Joan Maragall, o grande poeta catalão, distinguia do restante da literatura, dizendo até mesmo que “[...] a poesia é algo que não tem a ver com a literatura. Poesia é palavra viva e vivificadora. Assim como a Natureza tem no home a máxima expressão de sua capacidade criadora, o home deve empregar toda a força de seu ser em produzir a palavra”. ...

A conversa evoluiu para uma idéia, a da publicação de um livro, e logo me ocorreu intitulá-lo A Escola de Macau, o que obteve a receptividade entusiasmada de Gilberto. No título, há uma homenagem direta à cidade, mas há, também, uma busca nostálgica, uma reminiscência que o liga a outra “escola”, aquela de bases físicas e espirituais, que vive no coração de tantos macauenses, e que, neste ano de 2003, completa os seus 80 anos de vida, dedicada ao ensino da mocidade: o Grupo Escolar Duque de Caxias, destruído, dramaticamente, em seu modo arquitetônico original, com a sua completa demolição, ocorrida em 1973, e, depois, reedificado, em vulgar arquitetura. ...

 
 
 
 

Obra:Diário Nautico - Obras Completas - em dois volumes. Autor: Gilberto Avelino[1928/2002]; Sebo Vermelho Edições; 2004. No volume I: O Moinho e o Vento [1977]; O Navegador e o Sextante [1980]; Os Pontos Cardeais [1982]. No volume II: Elegias do Mar Aceso em Lua [1984]; O Vento Leste [1986]; Além das Salnas [1991]; As Marés e a llha [1995] e Os Tercetos e Um Canto às Vozes do Mar [2001].

Gilberto Avelino: O senhor de todas as marés

            Das pequenas e belas colinas de Natal, no velho Barro Vermelho, me assusta que os cantos dos bem-te-vis estejam sendo abafados pelos sons dos bate-estacas. São muitos nos últimos meses. Minha vista alcança sempre mais perto e tenho medo dos olhos espigões a vigiar-me mais e mais altos. Saudade das pequenas cidades em que morei. Tudo agora me chega pelo telefone. Até a morte.

 - Por obséquio, corre a notícia que o poeta morreu, você está sabendo de alguma coisa? Será mesmo verdade? Foi bem assim. A noticia chegou como indagação, dúvida, incerteza. Egoísta, eu que sempre soube que poetas não morrem, disse não saber nem que ele se encontrasse doente, quanto mais morrer assim, sem mais nem menos e ainda por cima num dia claro.

Mais tarde veio a confirmação. O poeta  decidira  voltar ao   seu   “chão de sal” , dessa vez, em definitivo. E eu fiquei por algum tempo quietinho no canto escuro da sala a recordar nosso encontro há poucos dias na Capitania das Artes. Conversa breve, fiapinho de prosa quase formal, passageiros que éramos do Navio entre Espadas da poesia  desnuda de Horácio Paiva, em noite de magia e alumbramento. Foi o meu último encontro com o poeta e ele estava muito feliz.

Poeta de imaginação, sensibilidade e fantasia soube cantar sua aldeia buscando em cada beco e viela, em cada uma das “ruas compridas”  dos “longos bairros” e em cada “gamboazinha” a poesia latente para nos revela-la, ora como um grito de alerta ou revolta, ora como música suave e enternecedora e sempre com a palavra límpida, precisa e certeira  e a imagem cravada, indiscutivelmente bela e profunda.

Recordo o carteiro de Neruda: “a poesia não é do poeta, mas de quem precisa dela”. Migrante às avessas, foi-me útil a poesia de Gilberto para compreender a região e o seu povo, a camaradagem rude de salineiros e pescadores e o coração escancarado por trás da carantonha.

E agora, se o poeta considerou que estava na hora da volta derradeira, foi porque, cansado das andanças por este mundo cada vez mais desalmado e farto de desacertos, viu que era tempo de buscar refúgio entre rios, mangues, gamboas e o remanso das praias macauenses. Não em busca de um ancoradouro, porque poeta nunca lança âncoras, mas como senhor de todas as marés, guardião “de ribas, trapiches, rampas”, vigia das praias de Alagamar e Camapum, vigilante das dunas de Barreiras e Diogo Lopes e sentinela avançada do Pontal do Anjo e da praia de Soledade, a protegê-las da ganância e ambição dos homens que teimam destruir os sons da vida e tudo o mais que seja azul ou verde.

                     Claudio Guerra, publicado na Folha de Macau em agosto de 2002.

 

Obra: Reportagens que ninguém escreveu; autor: Gilberto Freire de Melo; Fundação Félix Rodrigues; Coleção Várzea do Açu; Série A, nº 003; 2000; Manso Artes Gráficas Ltda.; CDD B869.3; CDU 869.0 [813.2] – 34; Pendências[RN].

Orelha do livro por Arlindo Freire

Na cidade de Pendências está situado um gene da humanidade, caracterizado pela criatividade, sabedoria e liberdade cultural, que tem sido desconhecido, ao longo do tempo e espaço do Nordeste brasileiro, em virtude de sua pobreza ou da falta de projeção na comunicação social.

O homem de Pendências está ligado ao mundo, assim como o grão de areia está inserto na duna formada das partículas que saíram do mar, levadas pelas ondas e pelo vento em direção ao continente.

Como pendenciense, o nosso Gilberto Freire, nascido e embalado pelas águas do rio Açu, tornou-se o gene, isto é, o grão de areia saído daquelas águas correntes para conduzir a sua gente ou o seu povo pelo infinito do oceano em que a vida teve o seu início.

O primeiro passo do autor de Reportagens que Ninguém Escreveu foi no ato de sua concepção pelo amor de seus pais, em Pendências de Cima, e, aos cinco anos de idade, quando foi introduzido naquela comunidade, feito com ideal, trabalho, fracassos, vitórias, lágrimas, alegria, fome, desemprego e angústias de ontem e de hoje.

Naquele ambiente está a imagem das mulheres que choram, sorriem e falam, além dos que preferem o silêncio, revelando o seu universo de semelhantes primitivos, índios e civilizados, brancos e negros, que vivem em Pendências, em conflito desde quando nasceram, em busca da paz, da felicidade, do amor, e do bem-estar ainda esperados no cenário coletivo.

No relato de vinte situações diferentes, simples e populares de Pendências, o legitimo escriba daquelas três populações unidas consegue fazer a síntese da história com a estória, em períodos difíceis que jamais serão esquecidos pelos seres humanos de bom-senso, solidariedade e respeito dos antecedentes e sucessores, mortos e vivos.

Com este livro, Gilberto faz a imagem e a poesia de nosso passado, dos que nasceram e viveram em Pendências, dando uma parte de suas vidas para que hoje em dia possamos ter a alegria e o orgulho de saber e reconhecer que somos os seus filhos, descendentes, parentes e amigos, sem esquecer que tudo começou com índios dizimados pelos brancos e civilizados na terra banhada em sangue, apesar de ter sido limpa pelas águas do rio.

No ouvido da orelha deste livro, deixamos o abraço para Gilberto Freire, manifestado a partir dos morros do Cabeço, destinado também ao povo pendenciense, com alegria infinita, assim como ao rio, ao solo, às árvores, animais, lua, sal e sol, além das estrelas que nos iluminam desde o alto de nossa tamarineira.

Arlindo Freire, Natal-RN, julho de 2000. 

 
Autora: Gilda Avelino; Obras: Varinha de Condão[1998]
 
 

A obra trataISBN: 85-7273-117-2;  Obra: De cidade A Cidade: o processo de modernização de Natal 1889/1913, Edufrn, Natal, 1999. Autora: Giovana Paiva Oliveira. sobre as transformações do espaço urbano de Natal.

 
Autor: Helvécio Barros; Obras: Trovas da Vida
 
 
 
 

Obra: A Insurreição Comunista de 1935 – Natal – O Primeiro Ato da Tragédia; Autor: Homero de Oliveira Costa; Cooperativa  Cultural UFRN; Editora Ensaio; 1995; São Paulo[SP]; ISBN 97 88585 66925 6. Leia no Fundo do Baú: sobre o episódio em Macau.

Orelha do livro do professor Celso Frederico, da USP

            O ‘assalto aos céus’, tentado pelos revolucionários comunistas, em 1935, ganha agora, neste livro de Homero Costa, um novo tratamento.

            A insurreição teve, até recentemente, uma fortuna critica que não fez jus à ousadia daqueles bravos militares. Não me refiro, certamente, às monótonas e burocráticas ‘comemorações’ da ‘Intentona’, que, infalivelmente, todo dia 23 de novembro eram feitas nos quartéis durante a ditadura militar. Importa assinalar tanto a cortina de silêncio do Partido Comunista quanto as interpretações tendenciosas e errôneas levantadas pela historiografia.

            O presente livro insere-se no movimento renovador iniciado pelos estudos de Marly Viana e Paulo Sergio Pinheiro, acrescentando a eles novas angulações e até corrigindo algumas imprecisões, dado o caráter localizado e minucioso da pesquisa.

            Vasculhando os autos do Tribunal de Segurança Nacional, Homero Costa concentrou sua atenção basicamente na cidade de Natal, ponto nevrálgico da insurreição. Assim fazendo, pôde reconstituir as forças operantes no interior da vida social: a crise das oligarquias locais, o papel desempenhado pelos representantes do movimento tenentista alçados à condição de interventores, a organização do Partido Comunista e da ANL, os ensaios de guerrilha rural e, principalmente, a situação específica vivida pelos militares do 21º Batalhão de Caçadores de Natal – o quartel-general da revolta. Com esse referencial empírico – que põe em primeiro plano o cenário real do drama – Homero Costa transcendeu as tradicionais limitações da historiografia, condenadas a ver em tudo o ‘dedo de Moscou’ ou a ‘infiltração policial’.

            O grande mérito deste livro é fazer reviver o contexto particular em que se desenvolveu  o drama de 35, com seus personagens, militares e civis, jogando-se de corpo e alma naquele heróico episódio de nossa história social. Sessenta anos depois, Homero Costa oferece ao leitor um relato apaixonante da ousadia daqueles combatentes ensandecidos pelos ideais de justiça social e entregues ao fogo do combate para construir uma nova forma de sociabilidade. Revisitando a complexa trama dos acontecimentos que propiciaram o levante, acompanhando os passos de seus personagens, reconstruindo com detalhes as variáveis políticas em jogo, o autor reconstitui vivamente aquele episódio épico da história brasileira contemporânea.

 
 
 
 

Navio entre Espadas; autor: Horácio Paiva; co-ediçao: Sebo Vermelho e Imperial Casa Editora da Casqueira; Natal[RN], 2002. 

Trecho do prefácio do poeta Anchieta Fernandes, denominado Convite

  “Cada época, com o seu Horácio [nome próprio que em sua etimologia significa: colocado sob a proteção das Horas, deusas da mitologia greco-romana]. Se os latinos tiveram Quinto Horácio Flaco, que produzia odes e sátiras na tranqüilidade de sua quinta nos montes Sabinos, o Rio Grande do Norte literário contemporâneo deve ler o que produz[iu] um poeta que, iniciante por somente agora publicar um livro, é no entanto maduro em idade e poesia: Horácio de Paiva Oliveira. Os poemas de “Navio entre Espadas” trazem uma linguagem onde a beleza reina plena temperada de toques de onirismo.

Vênus, por exemplo [v. o poema “Ode a Vênus”], cujo brilho é – cientificamente falando – apenas um reflexo solar, na poesia horaciana termina por ter um brilho de olhos humanos, já que o poeta, além de ver olhos azuis na estrela matutina, também escuta “palavras de encantamento” pertencentes ao astro. É como se a personificação mitológica [Vênus, a deusa do amor e da beleza] encarnasse o ser-brilho-planeta-de-olhos-azuis em alguém, uma amada humana. 

 
 
 

Obra: Memória de Macau; Autor: Hélio Dantas; Edição do IHGRN, 1998, Natal. Outras obras: Pedro Álvares Cabral, esse desconhecido[1968], Evocação da Cidade de Natal [1971]; Fatores Políticos da Independência do Brasil [1972]

Excerto da introdução do autor

“O presente livro está dividido em cinco enfoques principais, como a seguir: O Primeiro – Como nasceu Este Livro... O Segundo Enfoque cogita dos Primórdios de Macau, face aos documentos e ou a referências abordadas pelos autores, com recuo de mais de um século de publicações, com invocação do autor, do título da obra, onde foi efetuada a pesquisa, ou de outros elementos bastantes para identificação da fonte trabalhada, sobretudo do acervo da biblioteca do Autor. Conquanto não se traga matéria nova, todavia constitui um recurso proporcionado às novas gerações sobre a Historia de nossa Macau, dentro do ângulo trabalhado, face à raridade ou à pouca disponibilidade de livros para consulta...; O Terceiro Capítulo descreve a Infância e Adolescência do Autor...; O Quarto encerra pequena Galeria de Varões de Minha Infância em Macau... O Quinto Capítulo se constitui da cidade expressa pela Eloqüência das Fotos...”