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Revista Bodas de Ouro[9/11/1902-9/11/1952] da Ordenação Sacerdotal do Monsenhor Honório da Silveira.

Epidemias em Macau – as mais expressivas:

1856 – cólera

1877 – bexiga e beribéri

1918 – bexiga e beribéri

1934 – febre espanhola e bexiga

F. F. Araújo – Fragmentos históricos – Notas

“Macau originou-se da extinta Ilha de Manoel Gonçalves, desaparecida por volta de 1844. Data de 1825 as primeiras casas de Macau. Há um documento no Instituto Histórico e Geográfico sobre a relação das 13 léguas de terras pertencentes ao Coronel José Bento da Costa morador na praça de Pernambuco. Verifica-se que de todas as ilhas de que se faz menção, a de Manoel Gonçalves, com quanto pequena, era então a mais habitada, com 30 fogos, tendo casas comerciais de fazendas, secos e molhados, e que a de Macau, a esse tempo era evitada”.

A Resolução número 100 de 27 de outubro de 1843 diz: “Andre de Albuquerque Maranhão, Vice Presidente da Província do Rio Grande do Norte: Faço saber a todos os seus habitantes, que a Assembléia Legislativa Decretou e eu Sancionei a Resolução seguinte: Artigo 1º - Fica creado um Distrito de Paz na Povoação de Macau do Município da Vila de Angicos. Este Distrito compreende além do território que está marcado para o Sub-Delegado de Policia da mesma Povoação, o da Ilha de Manoel Gonçalves e o da Povoação de Guamaré”.

“A Mesa de Rendas Estaduais de Macau que a 5 de novembro de 1936 completa o seu primeiro centenário foi creada pela Lei nº 28 de 5 de novembro de 1836. Capítulo IV – Artigo 4º - Fica o governo autorizado a crear desde já huma Mesa de Arrecadação na Ilha de Manoel Gonçalves ou Macau, que se encarregue da arrecadação e fiscalização de todos os direitos provinciais naquele logar.”

Silvério Martins de Oliveira foi o primeiro administrador de 1837 a 1838 arrecadando 3:682$978.

“A Lei nº 158 de 2 de dezembro de 1847 elevou Macau à categoria de Vila. As despesas da Câmara neste ano foram: Gratificação do Secretário: 48$000, do Porteiro: 10$000, Aluguel da Casa de Sessões: 24$000; Compra de mobília: 80$000; Eleições: 2$000; Despesas eventuais: 5$000: Total: 196$000. Oitenta e oito anos depois a despesa do municio de Macau orçada para o exercício de 1936 é de R$26:940$000.

“É que Macau é mesmo muito desafortunada no tocante a ser olhado com um pouco de carinho pelos poderes públicos.... É belíssimo o panorama que, ao nos aproximarmos daquela terra salineira, oferece à nossa visão aquela cadeia alvíssima, sem fim, de pilhas de sal, que constituem o ouro branco do industrial salineiro, e porque não dizer também do humilde operário que, trabalhando na colheita, tira os meios de sua manutenção. ... São belíssimas também as miragens que sempre se vê quando o sol está mais ou menos a pino, ao se atravessar, em Macau, terrenos de salinas. ... Quero em conclusão, referir-me ainda à presteza admirável com que as mais das vezes, [não havendo greve...] se faz, por completo, a carga dos vapores que se empregam no transporte do sal, por maior que seja dentro de um curto período de poucos dias, tendo-se em consideração a grande distancia do lamarão, onde ficam, para as salinas, e ainda mais, também, a circunstância de só ser possível navegar em maré alta, de vez que como já disse, o rio está aterrado”.

F.F. Araújo – Dois abolicionistas macauenses

“Joaquim Honório da Silveira e Francisco Honório Canuto eram marítimos e amigos do desembargador abolicionista José Mariano do Recife. Eram mestres do cuter Jeriquity e do hiate João Valle. Comungantes dos mesmos ideaes, o dr. José Mariano, via, nos dois Honórios, amigos de sua absoluta confiança, dedicados e capazes de auxiliá-lo em tão humanitária cruzada. E, na verdade, assim o foi. Em uma de suas propriedades, sita no arrabalde denominado Poço da Panella, em Pernambuco, o dr. José Mariano homiziava os escravos que o procuravam, desejosos de se livrarem do cativeiro. Então, em um dia previamente combinado com os mestres das embarcações citadas, os escravos, ocultamente, embarcavam nos dois cruzeiros, da liberdade, pois assim se deve chamá-los, e, na viagem de retorno, eles, os mestres, deixavam-nos às vezes em praias deste Estado; outras, nas do Ceará, de onde nunca mais voltava à casa paterna. Existindo em Pernambuco uma associação denominada com muita propriedade Clube do Cupim, abolicionista, e reconhecendo a valiosíssima cooperação dos mestres Honórios, condecorou-os com a medalha de mérito...”

Antonio Bernardo de Passos – Notas históricas de Macau

“A Resolução nº 100 de 27 de outubro de 1843 criou o Distrito de Paz na Povoação de Macau, municípios de Angicos. A Resolução nº 158 de 2 de outubro de 1847 criou a Vila e Freguesia de Macau. A Lei 644 de 14 de dezembro de 1871 desmembrou da Comarca do Assu os municípios de Angicos e Macau e criou a Comarca de Macau. A Lei nº 761 de 9 de setembro de 1875 elevou à categoria de cidade a Vila de Macau [Dados: Repertório das Leis de P. Soares]”

“Mudaram-se da Ilha de Manoel Gonçalves em 1829 para Macau os portugueses Capitão João Martins Ferreira e seus quatro genros: José Joaquim Fernandes, Manoel Antonio Fernandes, Manoel José Fernandes e Antonio Joaquim de Souza e mais João Garcia Valadão, Francisco José da Costa Coentro, Eliziário Cordeiro e o brasileiro Jacinto João da Hora. A esse tempo a Ilha de Alagamar era habitada pelos práticos de barra de Macau com quatro fogos. A Ilha de Macau, assim denominada então, à margem do Rio Assu, junto à sua foz, cercada de rios salgados, tem seis quilômetros de extensão [leste a oeste] e quinze de largura [norte a sul]. A resolução de 19 de agosto de 1854 criou a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Macau”.

Manoel Gonçalves de Oliveira – As primeiras salinas de Macau

“Infelizmente, nos nossos apelos não tem sido correspondidos, pois há longos anos que vimos pedindo o nosso porto, estradas de ferro e de rodagem, colégio, banco e hospital e nada conseguimos até hoje”.

Ruy Moreira Paiva – Operário Macauense

“A similitude do trabalho marítimo comparativo a Macau e Areia Branca é quasi perfeita. Entretanto a ideologia dominante em razão de fatores que aqui não caber comentar, tem trazido para Macao certa incompreensão que o meu modesto depoimento está sempre pronto a elucidar. O operário macauense, apesar das vicissitudes que tem de enfrentar para cumprir com os seus deveres, é, em qualquer circunstância um paradigma de honestidade, de valor, de coragem. Quando exerci função de mando num setor de trabalho desse grande porto salineiro, tive inúmeras ocasiões de comprovar esta minha afirmativa. Em situações dificílimas, arrostando o rigor de intempéries... Quando se comemora ... para dizer as minhas palavras de louvor ao operário macauense, que ainda que anônimo e por vezes incompreendido: resoluto e injustamente incriminado de isocronia à ideologias exóticas que ele altivamente repele, a esse operário bom e amigo que na realidade é uma das maiores forças propulsores do progresso de nossa terra”.

Raimundo Nonato – As oficinas de Assu e Mossoró

O historiador Tavares de Lira – um dos precursores da história do Rio Grande do Norte faz menção às famosas charqueadas de Oficinas no Assu e Mossoró.  Ao assumir o governo da Capitania de Pernambuco, D. Tomaz de Melo, em 1879, acentuava num relatório: ... “foi preciso tomar também promptas medidas a respeito da carne fresca e salgada, da que já de outros anos atraz se experimentavam grandes faltas, informei-me da sua origem ouvindo na matéria as pessôas que maior razão tinham de o saber; e vindo a collidir que nos Portos de Assu e Mossoró, donde podiam vir os gados em pé para esta Praça e conseguir-se a fartura de carne fresca, havião várias officinas de salgar e seccar carnes, nas quaes se matavão os bois daquelles sertões visinhos e depois em barcos se transportavam as carnes para outras capitanias não ficando nesta mais que 3 ou 4 barcos para o seu consumo annual; suspendi a labutação das ditas officinas nos mencionados Portos dando conta a S. Magestade pela Secretaria do Ultramar de como o ficava executando emquanto a Mma. Senhora não mandasse outra coiza; e ordenei mais que os barcos empregados neste negócio fossem fazer a suas salgaçoens da Va. de Aracati para o Norte, e que viesse fundear e dar entrada no Recife, para eu aqui deixar os que fosse bastante para sustentação da Praça e das Fabricas dos Engenhos de fazer assucar, e das gentes do trato, que de ordinário não uzão de outro alimento; bem persuadido de que não devia deixar a fome em caza para ir fazer a abundancia dos de fóra...” in Gilberto Freire [Sobrados e Mucambos]

Nestor Lima – Macau e seus primórdios

...” é extremamente curiosa, porque é formada de rios, arrombados, pontaes e várias ilhas, entre as quais a de “Pisa Sal”, que pretende ser encorporada ao velho município salineiro. ... Ao tempo dos interventores, a população dessa ilha de “Pisa Sal” enviou uma representação ao Governo do Estado no sentido de ser anexada a Macau. A representação veio para o Instituto Histórico e aí permanece sem solução, à vista da falta de elementos para a informação necessária, que só seria útil e proveitosa si fosse precedida de observação in loco”.

O coronel Elias Souto, tio de Nestor Lima, colecionador de notas sobre o passado, possui um documento que supõe ser do coronel Jerônimo Cabral Pereira de Macedo, conhecido por Jerônimo do Morro, dando os limites de Macau.

Luis da Câmara Cascudo – Duas Actas sobre Macau - Notas

Ilha de Manoel Gonçalves – nome do sesmeiro que a possuía no século XVIII.

A transferência da população da ilha para Macau foi em 1797 [a partir de]

O Frei Vidal, missionário capuchinho chantou o cruzeiro em 1811, ainda na ilha

Em 1825 o cruzeiro foi transportado da ilha para Macau.

A Ilha de Manoel Gonçalves possuía Mesa de Arrecadação em 1836, bem como Juizado de Paz e Subdelegacia de Polícia.

Em Fortificações do Brasil de Augusto Fausto de Souza, informa que chegara a ter um Fortim ou Bateria. Há menção sobre a barra do Amargoso ou Assu.

Em ofício de 17 de janeiro de 1845 o chefe de Polícia do Rio Grande do Norte, senhor João Paulo de Miranda sugeria ao Presidente da Província, Brigadeiro Venceslau de Oliveira Belo, tio materno do Duque de Caxias, que suprimisse a Subdelegacia policial de Ilha de Manoel Gonçalves, “por se achar quase deserta e próxima a ser coberta pelo mar, bastando que tenha um Inspetor de Quarteirão enquanto de todo o mar não fizer desaparecer a ilha”.

“No mesmo janeiro de 1845, o Presidente aceitava a sugestão, incorporando o território ao Distrito da Povoação de Macau, como fizera em 1843 com o Juizado de Paz e em 1844 com a Mesa de rendas”.

“A ilha continuou vivendo nos mapas e portulanos. Vive na carta de Villiers d´Ile Adam, de 1848, no Roteiro de José Saturnino da }Costa Pereira, em 1848, no Dicionário de Millet de Saint Adolphe, em 1854. O Roteiro de Souza Aguiar, em 1857 anuncia a vitória do mar...”

O Comandante Eugenio de Castro escreveu um ensaio publicado na Revista do Instituto Histórico, volume XXXII – XXXIV, 1940, p. 153 – “é definitivo para a bibliografia da espécie”.

 

Terras de Camundá, de M. Rodrigues de Melo

 

p.155/159 ...”Dos fins do século XIX para os começos deste, o porto de Macau era um dos maiores da então Província, depois Estado. Todo o comércio do Norte-Leste-Centro-Sul do Rio Grande do Norte era feito por ele, através do porto de Oficinas e depois do porto do Carão, que por sua vez recebiam as mercadorias nos seus armazéns, fazendo a redistribuição para o interior, através de carros de bois e comboios de animais. Ficaram célebres, na região, os comboios do alto sertão e os carros de bois de toda a zona do Açu. Comercialmente, Natal quase não existia. A Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte era um sonho inatingível. Recife era, sob todos os pontos de vista, a grande metrópole do Nordeste do Brasil. Comerciantes e fazendeiros faziam as suas compras no Recife, transportando-as em navios para Macau e daí para o interior, através do porto de Oficinas e do porto do Carão. O comercio do Recife e de Macau alimentava, assim, a zona rural, mandando sal, querosene, farinha de trigo, sabão, tecidos, ferragens, miudezas, retirando desta grande parte dos seus gêneros, pois dali vinha a farinha, a carne, o arroz, a batata doce, o jerimu, o milho, o feijão, a macaxeira, o queijo, o leite, o couro, o algodão, além de uma infinidade de produtos que entravam no cômputo geral da sua alimentação e do seu comércio. ... Em quinze, tivemos a dolorosa tragédia dos chapéus da fome, indivíduos isolados ou famílias reunidas que desciam do alto sertão, em busca de arrimo, nas salinas de Macau ou do Açu. ...Macau e Açu foram, durante muito tempo, o amparo dessas populações flageladas. E o grande esteio desse amparo, nas horas de crise, eram o porto de Macau, o porto do Carão, as riquíssimas vazantes do Rio Açu, os carnaubais da várzea, as salinas de Macau e do Açu, os transportes fáceis, em carros de bois e em comboios, em navios e embarcações a vela, em todo um conjunto de elementos que contribuía para a grandeza e felicidade daquela região do Rio Grande do Norte. ... Agora, está se dando o contrário. Com a obstrução do porto de Macau, o aterramento do porto do Carão, o desaparecimento quase total do carro de boi, dos comboios, das canoas e bateiras, que faziam o transporte daquelas mercadorias, com a decadência, enfim, do porto de Macau e do seu auxiliar, o porto do Carão, muita gente ficou sem trabalho, os armazéns fecharam as suas portas; ... Todo o comércio do Açu e de Macau se abastece atualmente nas grandes firmas comerciais de Moçoró. E os mascates, os miçangueiros que andam por aí, onde compram? Em Moçoró. Macau perdeu a liderança comercial com a obstrução do seu porto e o aterramento de sua barra. Os navios ficam lá fora no Lamarão. 

     

 
 Acima poço da Marechal em 1982
 
 

               

         

                 Pelas 8 ½ horas da manhã do dia 31 do mez (agosto) próximo passado, na occasião em que passava o Doutor Armando de Nogueira China, pela rua Pe. Manoel Jeronymo em frente mais ou menos a caixa d’água de propriedade do Município, guiando a Baratinha nº 1 pertencente ao município, teve necessidade de parar por solicitação de um amigo, quando foi nesta occasião atingido por uma violenta pedrada de 1 Kilo e 480 gramas de peso, brutal e covardemente atirada pelo indivíduo José Barbosa Cavalcante (Cazuza), que prostrando quase sem vida o Dr. Armando China...”

 

                                Obs: o fato deve ter ocorrido em 1930. O Dr. Armando China era prefeito de Macau

 
 

Foto 1, amigas no Rio Açu, década 40. Foto 2, Fandango.

 
 

Foto extraída do livro Memória de Macau do escritor Helio Dantas.

Texto: Macau na etnografia norte-riograndense; autor: Manoel Rodrigues de Melo; publicado no jornal A República e 14/11/1948. [p. 16 a 18 do livro Manoel Rodrigues de Melo Biobibliografia 1926-1995 da professora Terezinha Aranha, da UFRN.

Macau foi uma das cidades do Rio Grande do Norte que melhor comemoraram a passagem do primeiro centenário da Independência do Brasil.

Lá me encontrava em 1922, menino, vendo e ouvindo à distância, o desfile das escolas, o estrugir dos hinos, a melodia da música, a harmonia dos cânticos, a estridência das vozes, o arroubo dos discursos.

Tudo isto recordo com saudade.

Recordo as figuras do tempo, com projeção na política, no comércio, nas letras, nas festas sociais, nos bailes da Intendência, nos folguedos do carnaval, no foot-bal.

Recordo as lojas, barbearias, bodegas, armazéns, alfaiatarias, bilhares, casas de jogos, café, quiosques, padarias.

Recordo as ruas pitorescas, curiosas, de nomes esquisitos, relembradores de hábitos e costumes da terra e do povo: rua da frente, cordão azul, boi-chôco, puxa-puxa, feira velha, cruzeiro, gameleira, são José, quatro-bocas, beira-preta.

Recordo os monturos altos, fedorentos, elevados, verdadeiras pirâmides que o prefeito João Melo fez desaparecerem para bem da saúde do povo e glória do seu nome.

Recordo o carrossel, o porto-do-roçado, a quixaba, as imburanas, a ilha de canapum, o alagamar.

Recordo as alcunhas e apelidos, divididores dos moleques da cidade: boichoqueiros e beiras-pretas.

Recordo os trapiches, as rampas, os botes, as barcaças, as canoas, as balseiras, as lanchas, os navios, os cuters, as bateiras, os rebocadores.

Recordo tudo isto e mais ainda as mulheres, os meninos, as moças, os homens, a tudo e a todos. Mas, nada recordo com tanta precisão como a leitura do primeiro romance, A Mão e a Luva, cujo autor não gravei mas vim a saber depois tratar-se de Machado de Assis.

Recordo ainda com doçura e com enlevo, especialmente quando me ponho a reler as suas páginas amarelecidas pelo tempo, a Poliantéia do Centenário que ali se publicou naquela época, cheia de clichês, artigos, noticias, curiosidades, poesias onde se tem notícia de várias figuras nascidas em Macau e que se projetaram depois não só dentro como fora do Estado.

Recordo ainda o monumento construído na praça da Conceição comemorativo da passagem do centenário, para o qual contribuiu o comércio local.

Recordo ainda as figuras de rua, populares e esquisitas João Real, Chibarra, Papagaio Louro e Josefa do Garrote.

Recordo os primeiros chauffeurs: Vinoca, Ismael, Virgilio, Milton, Zacarias, Gustavo.

Recordo os violões gemedores, as serenatas, as modinhas, os tocadores Constâncio, Policarpo, Luiz de Babu.

Recordo Vavá, empregado do telégrafo, cantando Praieira de Othoniel, no bilhar de Janjão Medeiros.

Recordo os poetas e poetisas Edinor, Eduardo Pacheco, Luis Xavier, Olda, Dulce e Gil Avelino.

Recordo Loquinha, maníaco, fazendo versos, apupado, comentado, discutido, vaiado... [coitado dele] e o povo cantando na rua,

‘Bate sola, Loquinha, bate sola,

Que o sapateiro lambe tudo e se consola...’

Recordo a tudo e todos, mais ou menos desse tempo e dessa época.

Recordo João Soares, Pedro Pinheiro, Orlando Correia, Zeca e João Mariano, Feliciano Tetéu, Tristão de Góes, João Teixeira, Manoel Simeão, Antonio Antunes, major Pinheiro, Antonio Bezerra, Armando China, Padre Julio Bezerra.

Recordo o sacristão seu Miguel, conhecido de todos, casado, família grande, criada sob o patrocínio e as bênçãos da Santa Madre Igreja.

Recordo os irmãos Severo, José, Nascimento.

Recordo os Coelho: Chico, Artur, Samuel, Joaquim, este professor, ensinando a tanta gente e a mim também.

Recordo os colegas da escola Joaquim Costa, Raul Ramalho, tantos outros além destes, que já morreram.

Recordo seu Araújo, cronologicamente o primeiro historiador macauense, com serviços relevantes prestados à terra, fundando jornais e revistas.

Recordo Virgilio Pinheiro, proprietário de tipografia, fábricas de sabão, cigarro, charuto, preocupado igualmente com a letras, ao lado do seu cunhado Araújo.

Recordo Major Quinca de Eufrásio, baixo, magro, miudinho, considerado o arquivo vivo e ambulante da cidade.

Recordo Caetano Mangia, filho de italiano, tomando parte em tudo, da Irmandade Religiosa ao comentário chistoso e político da cidade.

Recordo Paschoal Carielo, Seu Joca, Chico Rodino, tres pessoas distintas em um só coração verdadeiro.

Recordo estudantes do curso secundário e superior, Olavo Montenegro, Joãozinho Bezerra, Albino e Fenando Melo, Lauro Góis, João Álvaro e Abelardo Melo.

Recordo os portugueses, como Bichão e Zé Bento, polacos como Vitoldo Zaremba, italianos como José e Pascoal, todos integrados na vida da cidade como legítimos filhos da terra.

Recordo Pacheco, Eduardo Monteiro, Alfredo Teixeira, Emidio Avelino e tantos outros dignos de menção, que a exigüidade de espaço não permite arrolar.

Recordo seu Coimbra, mestre de tantas gerações, cujo nome a cidade guardou com orgulho e admiração.

Recordo os sobrados da terra, elegantes, altos, vistosos, incontestavelmente uma das mais bonitas da cidade.

Recordo, enfim, as salinas, os salineiros, proprietários e trabalhadores, aterros, caçambas, balaios, ranchos, tomadores de notas, pegadores d’água, todo um pequeno mundo que ali vive, ama, sonha, veste, bebe, se alimenta e reproduz, há mais de cem anos.

Recordo os leiteiros de Amargoso, Pocinhos, Boa Vista, Ilha de Zé Camelo, Geminiano, João Alves, Serafim.

Recordo a todos, porque todos pertencem à mesma colméia, à mesma sociedade, ao mesmo município, ao mesmo rincão abençoado, trabalhando e promovendo a sua grandeza e prosperidade.

Por isso a todos recordo sem distinção de cor, de partido, de religião, de nacionalidade, de classe, de posição social e econômica.

Todos são macauenses por nascimento ou por adoção e como tal merecem ser estudados num livro de compreensão e valorização do homem e da terra das salinas.

O livro virá certamente.

Mas, por enquanto fiquemos só na recordação.

Foto extraída do livro Memória de Macau do escritor Helio Dantas.

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Notas de Viagem [De Macau e Natal], Ezequiel Wanderley [1872-1933] in Balões de Ensaio, 1919.

“O Cururupú levanta o ferro a vae preguiçosamente rasgando o seio do Piranhas.

Lanço os últimos olhares para esta querida Macau que, momentos antes, minh’alma estreitára num abraço de despedida emotiva.

Esqueço, no meu isolamento, as nuances da paisagem marinha e, recostado á amurada, contemplo o luzido cortejo dos amigos, dos quaes há pouco recebera o carinho confortante de u’a manifestação.

Envio-lhes, de bordo, o meu adeus agradecido.

Retribuem-m’o.

Aceno-lhes com o chapéu.

Correspondem-me.

Braços erguidos, agitam lenços que lembram azas de garça ou velas pandas de jangadinhas, na travessia dos verdes mares, trazendo-me á imaginação este bellissimo poema de Guimarães Passos:  

Teu lenço

Este teu lenço que possuo e aperto

De encontro ao peito, quando durmo, creio

Que hei de mandar-te, um dia, pois roubei-o

E foi meu crime, em breve, descoberto.

Lucto, porém, a procurar quem, certo,

Posso servir-me nisto de correio...

Tu nem sabes que grande é o meu receio,

Se em caminho te fosse o lenço aberto.

Porém, ó minha vivida chimera,

Fita as bandas que eu moro, fita e espera

Que, enfim, verás em trêmulos adejos...

Em cada ponta um beija flor pegando,

Ir pelo espaço o lenço teu voando,

Pando, enfunado, côncavo de beijos...

Rio a fóra.

Chegam-me ainda aos ouvidos, quase extinctas, as harmonias da Charanga Macauense, contrastando com a minha saudade.

Declina a tarde.

“Lágrima de sangue do poente”, o sol despede-se do mar enviando-lhe caricias mornas.

Todo azul, na mudez dos contemplativos, o céu parece estampar-se no espelho das aguas.

Vento largo.

O Cururupú accelera a marcha.

Impelle-o o movimentar das hélices revoltadas contra a fúria das vagas.

E, distantes da terra que abrira para nós as portas de ouro do coração amigo, augmenta a saudade – dôce companheira dos visionários do Sonho, dos eternos beduínos da Ventura...

 Ao abrir da noite...

Há rutilação indecisa das estrellas que me fazem evocar estas doiradas relíquias de Francisco Mangabeira, adorável poeta bahiano:

‘Por causa do marinheiro

Foi que Deus creou os soes,

E se tornou pharoleiro,

Enchendo o céu de pharóes.’

 Alto mar.

O navio modifica a marcha.

Um moço de convez, cavador de gorgetas, annuncia que o Cururupú vae deitar ferro.

Effectivamente.

Distingue-nos a gentileza do commandante Melchisedeque, que nos traz seus cumprimentos.

Cessou o coaxar da machina. 

No Lamarão, vagas se arqueam, se levantam e se arrojam, violentas, sobre o dorso de ferro do navio acorrentado.

Alguns passageiros, amofinados pelo enjôo, recolhem-se aos beliches.

Outros reagem contra o mal, palestrando no tombadilho, á son nise, em suas chaise-longues.

Perto de mim esta o sr. Boanerges.

É um padre em projecto, mas de espírito já meio saturado de incenso e mirra dos altares.

O novo seminarista com uns trechos de latim e alguns versículos do Evangelho, rebate as doutrinas do espiritismo, com as quaes vem impregnando o ambiente um moço irrequieto e palrador.

Julgo bacharel, como toda gente, o antagonista do clérigo imberbe.

No entanto, trata-se, apenas, do propagador ardoroso do Elixir de Mururé, que sem comprometter seu mandato commercial, aproveita as férias da viagem para espargir ás idéas controvertidas de Allan Kardec.

Não há duvida, o sr. Álvaro Silva é um interessante bohemio, que, a não existir, devia ser inventado...

Sôam vinte horas.

A sineta de bordo convida-nos á mesa.

Há uma exclamação de alegria.

Levantámo-nos todos.

Eis-nos em sala de refeições.

Bebo constrangidamente uns goles mornos de café ordinário.

Volto ao tombadilho.

Faz frio...

Embrulho-me na minha capa de borracha.

Espreguiço-me numa cadeira de vime.

Volvo os olhos para o céu.

Contemplo o scintillar das estrellas.

Admiro a palpitação dessas reticências de luz.

Dentro de minha phantasia de poeta, opera-se o milagre das suaves evocações...

Scismo...

Passeiam-me á imaginação as paredes de meu tugúrio abandonado.

Penso naquelles elegantes saraus de fevereiro, em que a mulher macauense, com a soberania de sua graça, imprimira a nota chic no carnet das ruidosas diversões carnavalescas, agradáveis ao espírito, mas prejudiciaes ás algibeiras...

Como que ainda me sinto preso á convivência dos illustres confrades da Folha Nova.

Recordo a serenata maviosa com que, véspera da partida, me despertára a alegria saltitante de amáveis rapazes, credores insolvíveis de minha estima.

E por fim, parece-me ouvir o Gil Avelino e o Epiphanio Noronha dizerem balladas de amor, ao som ameno dos violões gementes, com que o Constancio de Souza e o Polycarpo Bezerra quebravam o silencio dessa noite estrellada, suggestiva, mysteriosa...

Maguados pelo sentimento da saudade, como é bom recordarmos os dias que se foram!...

Emcima, no convés, recrudesce a tagarelice, entre os passageiros.

Ouço-os em silencio.

Fala-se de política.

Surgem palpites sobre o ministério.

Discute-se a possibilidade de um empréstimo aventado pelo titular da pasta da Fazenda, com o apoio immediato e forte do Presidente eleito.

Divergem as opiniões.

O general Pinheiro Machado e o conselheiro Ruy Barbosa constitúem o alvo maior da conversação.

Renovam-se commentarios, em torno de velhas idéas.

Esfuziam pilherias.

Enflora-se-me aos lábios pallido sorriso.

Consulto o relógio.

- -Vinte e uma horas.

Emballado pela musica das vagas, adormeço. Sonho...

Desperto e vejo, como o poeta, que –

‘Vinha, ao longe, raiando a loira madrugada’.

Gonçalves Maia, uma das mais brilhantes intelectualidades pernambucanas, tecendo carinhosamente as linhas preliminares do seu Livro de Viagem, interroga a nós outros, que pouco o temos e muito o admiramos:

Quem sente mais? Os que vão ou os que ficam?

E, adeante, nesse adorável capitulo que o belletrista pátrio denominára Alma Dorida, vamos encontrar essas jóias inestimáveis que, de há muito, guardamos na memória:

‘Dizem que as arvores sentem, como agente, a dôr dos golpes impiedosos’.

Ouvidos de poeta têm já decifrado a sua linguagem amorosa, nas horas tranquillas em que dormem todos os barulhos da vida.

Vem dessa sensibilidade intelligente a sua pena e a sua doença, quando as arrancam do solo amado.

Em outro terreno, serão ellas mais frondosas? Mais bellas? Florescerão? Darão fructos? Terão o carinho das novas solicitudes, ou serão abandonadas, apedrejadas, mutilladas, infelizes? ...

A duvida que persegue as arvores transplantadas de uns para os outros campos é a mesma que persegue os homens.

Certamente que tudo leva na alma uma esperança, estrella que não se apaga.

É a mesma que eu carrego commigo, há annos, desde que a vida se me tornou nessa folha solta cujo destino o poeta Arnaud descreve tão bem’.

E fechamos o parênthese sem responder a pergunta:

- - Quem sente mais? Os que vão ou os que ficam?

A caminho de Natal.

O navio surprehendera-me adormecido, ao romper novamente a sua marcha.

Agora invejo os que ainda ressonam.

Espreguiço-me...

Bocejo...

Sibila um vento impertinente.

Ouço cantar á surdina.

Quem será?

Aproximo-me.

É um marinheiro. Em voz cavernosa e sentida, diz uns versos talhados á dolência do mar, que me subsistem na memória:

‘Para adormecer no rio,

Junto aos pés de uma cidade,

Não foi feito o meu navio

Que zomba da tempestade...  

Larga as ancoras, desferra,

Larga, larga! Deixa a terra,

Iça, alonga, sem parar...

Fóra sobros e cutellos!

A talhar nos andarellos,

A ancora toda a beijar!  

Deixa estas velas de prôa,

Gávea grande! Todo panno!...

Meu navio é uma coroa

Sobre a fronte do oceano.

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Venha o vento, ronque a morte,

Nada temo á minha sorte,

Nem te vou abandonar...

Embora cresça o perigo,

Não importa, irás commigo

Dormir no fundo do mar’.

Ouvindo essa canção, recordo aquella noite de luz e rosas, de sorrisos de velludo e alegrias saltitantes, em que a mimosa Juracy Ramalho, no theatrinho Juventude, cantára com muita expressão e muita graça, essas mesmas estrophes portuguezas.

Estendo os olhos pela curva brumosa do horizonte.

O céu como que se confunde, na delicia de um beijo de amor, com o glauco das aguas.

Vencendo algumas milhas, o Cururupu segue sempre, avança muito.

Eil-o a vomitar nuvens de fumo pelo cano obliquo que se nos afigura um grande charuto de aço preso aos labios massudos de um gigante de ferro.

Dormem ainda quase todos os passageiros.

Alguém chora!

Sem duvida, alguma creança.

Não me enganei: É um petiz que se não conforma com a sua installação fluctuante e reclama gottas de leite, ás solicitações do estomago.

Começa a descer um neblineiro impertinente.

Receioso de pilhar uma constipação, recolho-me á ante-camara.

Surprehendo a dormir, na quietude de um bem-aventurado, o sr. Pereira de Sá, da casa J. Pessoa de Queiroz & Cª., praça do Recife.

É meu conhecido.

Á sua gentileza devo os primeiros commodos a bordo.

Fizemos relações, há poucos dias.

Estimámo-nos na Pensão Macau, saboreando os acepipes com que amavelmente nos mimoseava d. Innocencia.

Adeante, mais outro cavalheiro.

Esse é magro como um palito e vermelho como um pimentão.

Sei, por informações, exercer o melhor de sua actividade no commercio ambulante.

Superficialmente o conheço.

Vi-o, algumas vezes, pelas ruas de Macau.

Cochicharam-me haver embarcado, como por sonho, deixando em terra o coração...

Éscrich, uma vez escreveu: As mulheres têm a propriedade de fazer dos homens heróes e patetas, mas quase sempre patetas...

Extranho vêr que se dorme nesse compartimento reservado á entabolação das palestras e ás espiraes do fumo.

O aviso prohibitivo ali está!...

Mas nem por isso deixo de me estirar num sophá que se acha em disponibilidade como o meu velho amigo Onofre Pinheiro.

Perto de mim, embrulhado no seu chambre de flanella escura, vejo o piano em que o Neco Alves correra vertiginosamente os dedos, quando ainda boiávamos á tona desse rio copioso e manso, eterno confidente de paixões românticas...  

Eis-nos fazendo a travessia de praias verdejantes.

Já transpuzemos Barreiras, passamos Gallinhos, defrontamos Jacaré.

Não encontrem os viciosos incorregíveis, na denominação desses logarejos, prejudiciaes palpites para o jogo do bicho.

Neste momento, se me não engano, vamos atravessando Caiçara.

Parece deslisamos sobre a faixa velludosa de um rio.

O mar é tranqüilo. Mas, não obstante, alguns passageiros, encafuados nos beliches, continuam a fazer discursos...

É uma tortura a viagem marítima para os que enjoam.

Que o diga o major Antonio Pinheiro...

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Estou alerta.

Fugiu-me de todo o somno.

Trabalha-me o espírito a ancia incontida de ver decerrarem-se as pálpebras do dia.

Penso na família, que adeante me espera com o sorriso nos lábios, e não deslembro os amigos, que atraz deixára com a saudade no coração. 

Céu puríssimo, formoso.

‘Papoula rubra do firmamento’, o sol parece emergir, tremulo de frio, do seio offegante das aguas.

Manhã radiosa.

Volto á minha cabine onde deixára a roncar escandalosamente dois bons companheiros de viagem.

Banho o rosto, aliso os cabellos.

‘Envergo’ toillete clara, leve.

Tenho commigo pequeno binóculo, para melhor apanhar o labyrintho das praias amigas, beijadas a cada instante pela renda travessa das espumas.

Quase todos os passageiros, recolhidos á sala dos retratos, esperam o termino desse paulificante serviço de baldeação.

Só assim contam respirar, com ampla liberdade, o ar oxigenado desta risonha manhã de março agonisante.

Vou ter com elles.

Sento-me.

Alguns patrícios conversam, commentam, criticam.

Deparam-se-me o dr. Xavier Montenegro e os coronéis Xico Coelho e Faustino do Monte.

Este ultimo vemo-lo dentro de sua indefectível pijama...

Mais ou menos afastados de outros palradores, esses cavalheiros falam sobre salinas, arrendamentos, suspensão de contractos, programma o novo governo, etc. etc.

Tem a palavra o coronel Faustino do Monte.

Industrial intelligente e pratico, o operoso capitalista mossoroense não esconde os receios da desvalorisação do commercio do sal, sem o amparo protector e forte do syndicalismo patrício.

Trocam-se apartes.

O velho moço, coronel Xico Coelho, aproveita o ensejo para fazer humorismo e bordar ironia, por ser talvez, daquelles que, segundo o poeta acadêmico – se comprazem em mofar da gravidade da vida, dando-lhe piparotes na caraça austera.

Rompem gargalhadas.

O dr. Montenegro, no entanto, mantendo a costumada circumspecção de Juiz criterioso e honesto, emitte sua oppinião, expande suas idéas, sem outro interesse, a não ser o de ver prosperarem as rendas do Estado.

Bello gesto de patriotismo, realmente! ...

Sôa a sineta.

Desço em companhia de outros amigos á sala de refeições.

Sirvo-me de uma chávena de café, morno e ordinário, como o da véspera.

Transponho, depois a escada.

Torno ao convés.

Terminára o banho matinal com que a hygiene de bordo costuma assear a carcassa dos navios.

Ponho-me a chupar philosophicamente um dos aromáticos cigarros Patria, que, ainda em Macau, me déra a gentileza captivante, mas reflectida e calma, do major Virgilio Pinheiro, da Fabrica Progresso.

Estendo os olhos pela costa.

- - Onde estamos? Pergunto ao coronel Xico Coelho que, gostosamente, vae saboreando as paginas de bonito exemplar da Bibliotheca Internacional de Obras Célebres.

- - Em Santa Maria; disse-me elle contemplando perto a terra de seu berço.

- - Sempre que por aqui passo, continuei, me apraz assistir ao conflicto rebelde do mar ululante com a jangadinha tênue e humildes pescadores que andam cavando a vida...

- - E muitas vezes, a morte; accrescentou, pigarreando, o coronel delegado, do Barro Preto.

Nessa occasião, o dr. Montenegro, de pé, no tombadilho, assestáva as vidraças claras de seu binóculo bisbilhoteiro, graphando nas retinas e photographia interessante daquella praia que a mão calosa do homem prodigamente enfeitára de coqueíraes farfalhantes.

- - Foi ali, murmurou o bizarro escriptor das Estalactites, onde, ao influxo salutar dos carinhos maternaes, deslisaram os venturosos dias de minha juventude.

Ainda me lembro, prosseguiu elle, de infinda tristeza, da profunda saudade com que de la me ausentára para o início disciplinar dos meus estudos superiores.

Em compensação, porém, [falo aos meus botões] o dr. Montenegro é hoje magistrado, senhor de algumas fazendas, proprietário de magníficas salinas e dispõe, a seu talante, de luzidas patacas, por precaução, muito bem aferrolhadas...

Ondeia o vento.

Volto a occupar minha cadeira onde, há pouco tempo, se refestelára  um moço que se deixou abater pelo enjôo.

Levo as mãos aos bolsos.

Encontro, casualmente, umas tiras dactilographadas em machina Remington.

É uma saudação de despedidas.

Trabalhou-a meu presado amigo Eduardo Pacheco, para alvejar-me na manifestação de 29.

Não podendo recital-a, com ella presenteou-me a bordo o jovem sonhador, no momento em que eu, de alma nos olhos, deixava essa hospitaleira Macau.

Leio-a de um fôlego e, no meu fôro intimo, agradeço o gesto de bondade atávica do plumitivo illustre, creador que se fizera, com Argemiro Prestes, da revista Fiat Lux, de saudosa memória.

Vae alto o sol – bello apagador de estrellas, na phrase cantante e moça de Humberto de Campos.

Contemplo as praias mansas que margeiam a costa.

Aqui o verde ondeante do coqueiral florido.

Ali, pequenas palhoças, modestas habitações de rudes homens do mar.

Acolá, a frota irrequieta das jangadas, na faina incontida da pesca.

E o Cururupú, no desiquilibrio habitual de ébrio fluctuante, mais e mais se distancia de Tres Irmãos, Reducto, S. José e outros pedaços queridos da costa povoada e rica.

Ao divisarmos Cajueiro, chega-se a mim o Xico Araújo.

Toda Macau o conhece: é o ex-vice presidente da Intendência de Areia Branca, e ex-escrivão da Mesa de Rendas estaduaes daquella villa.

- - “Vê este logarejo que nos fica em frente?  - - Interroga-me elle, estirando o indicador.

- - Perfeitamente.

- -Pois bem; ali, meu caro, proseguiu meu interlocutor, a preço de sangue, pagou, há annos, a ousadia de seus amores fáceis um ardente vassallo de Cupido.

- -Deveras?

- - Posso garantir. E, se quizer, accressentou o Xico, addicione essa façanha trágica ás suas Notas de Viagem.

...

Pobre deus do Amor! Vem de longe prostituírem sua belleza moral dos teus sentimentos aquelles que, na ancia de desejos estuantes, não sabem resistir á palpitação insolente da carne, aos instinctos impectuosos da volúpia, ao fremito do goso, feito suprema delicia da vida... 

Ouve-se, pela segunda vez, o tilintar da campa.

Vamos ter á mesa do almoço.

Já lá está o commandante Melchisedeque, sempre amável, attencioso sempre.

O major Antonio Pinheiro não comparece á chamada.

Segue-lhe o exemplo o coronel Tristão de Góes.

Ainda bem... São dois de menos á parcimônia dos guizados.

O primeiro passeia no tombadilho o seu enjôo; o segundo, porém, deixa-se ficar no beliche, rodeando de carinhos a filha dilecta que se vae internar, em Natal, no Collegio das Dorothéas.

A refeição fazemol-a nós ouvindo esfusiantes pilherias do propagandista do Elixir de Mururé, e admirando a voracidade ignóbil de certo commensal, ao devorar cebolas fritas em azeite rançoso.

No convés.

Estamos a ver Touros.

Informam-me ser um ponto excellente, como Maracajaú, para o regalo tonificante, nas estações marinhas.

Volteio o meu binóculo.

Ao longe, convida-nos á meditação e á prece uma igrejinha solitária e branca.

Meia hora depois, pesam-me as pálpebras.

Commodamente, estirados em possantes espreguiçadeiras, resonam o coronel Xico Coelho, o coronel Faustino do Monte e o coronel Tristão de Góes.

Irra! Com tantos officiaes superiores não seria difficil fomentar uma revolução, se não para derruir as instituições republicanas do paiz, ao menos para protestar contra a parcimônia absurda e a má qualidade dos manjares de bordo.

Adormeço. 

Ao abrir do dia...

Despertamos todos.

Atraz ficára nova orla de praias amenas.

O dr. Montenegro, rodeado de pequenas auroras, de mimos infantis, tem para elles, a cada momento, sorrisos amenos, caricias de mel.

São os mimosos filhinhos que fazem festas de amor ao querido papae.

Corre célere o tempo.

É outro o mar.

Passámos, agora mesmo, o Cabo de S. Roque, terror dos passageiros pusillanimes.

Vagas altaneiras, ondas acapelladas cortam a quilha esguia do Cururupú, que segue rumo certo.

De quando em vez, faz-se interrogação:

- - A que horas chegaremos em Natal?

- - Quantas milhas nos faltam?

- - Seremos logo visitados pelo medico da saúde do porto?

- - Desembarcaremos com chuva?

E os viajantes, a essas, deixam seguir novas perguntas, anceando galgar o porto desejado.

Isso é muito natural, ao esperarmos debellar o enjôo torturante que nos causam a oscilação do vapor.

Longe de nós, a cordilheira das ultimas praias arenosas montando guarda ao velho mar espumante e raivoso...

O navio acaba de sulcar as aguas singultosas de Muriú, Porto-mirim, Jacumã, Pirangy, Barra, Genipabu e Ridinha.

Fundeado agora á pequena distancia da cidade, recebe a visita protocollar do Pratico que vae fazel-o romper o coração mysterioso e profundo desse grande rio que a musa evocadora de H. Castriciano festivamente cantára em estrophes épicas e arrebatadoras.

No alto da fortaleza dos Santos Reis Magos, despejam bandeiras de cores berrantes, levando ao telegrapho óptico da Sé a nova alviçareira da approximação do Cururupú.

Mergulhados no immenso tumulo verde, insondável como todos os abysmos, lá estão o Gran-Pará e o Una.

A um perdera a imprestabilidade da machina; ao outro arruinára a negligencia do commandante.

É o que me informam.

Fazendo curvas, delineando zig-za-gues, enfrentando as investidas do mar que se lhe arroja, n’uma fúria leonina, ás paredes de ferro, o navio faz-nos ver, pouco a pouco, o bello panorama da risonha Natal.

Tarde magnífica.

Trapos de nuvens andam a mosquear a cúpula azul do céu.

Grupos de curiosos já se approximam do caes Tavares de Lyra.

Reclinados ás bordas do navio, saudamos a formosa cidade nortista.

E o Cururupú, ás 15 horas, joga o ferro nagua soluçante do Potengy, onde garbosamente se ostentam o Ceará, bonito paquete do Lloyd Brasileiro, o Tymbira e o Tupy, dois elegantes vasos de guerra da marinha nacional.

Os navios cumprimentam-se.

Sobem e descem bandeiras, emissárias silenciosas de protestos de estima.

O Cururupú apita.

Corro ao beliche.

Banho o rosto, friso o bigode e mudo de traje.

Providencio sobre o desembarque das malas.

Volto ao tombadilho.

Alguns passageiros, dentro de roupas bem talhadas, envergam elegância.

Em roda do vapor, fluctua pequena frota de embarcações miúdas.

Os escaleres Dois Irmãos, Porto Alegre, Santa Maria, Rio Branco, Ceará, Tupy, Flor do Rio, Santo Antonio, e tantos outros, pleiteam o transporte de passageiros, para a terra, e o frete da bagagem.

Catraieiros conhecidos offerecem-me serviços remunerados, gritando uma, duas, dez, vinte vezes, numa balburdia de todos os diabos:

- - Patrão, diz um impando, aqui tem o Fulou do Rio, que é o bicho escalé.

- - Seu majó, continúa outro, dê este ganhosinho a nós, do Ceará.

- - Vossa senhoria se alembre, insiste um terceiro, que o Correio do Norte corre nagua qui só peixe.

- - Seu doutou, vae ou num vae o Rio Branco, brabo, do Gonga? – interroga-me, por fim, mais um catraeiro. 

Estabelece-se a competência entre companheiros de officio.

Rio-me aturdido por esse fervet opus prolongado por algum tempo.

Mas as pequenas embarcações permanecem distanciadas do vapor ancorado.

- - Que há? pergunta o coronel Tristão de Góes.

- - Por quem se espera? – interroga o major Antonio Pinheiro, ao ver approximar-se um escaler em que o major João Sizenando lhe traz as bôas vindas, na sua voz de barítono constipado.

- - Desembarca-se ou não? – Fala o coronel Faustino do Monte.

- - Teremos de fazer quarentena? – Intervem sorrindo, o coronel Xico Coelho.

E, só mais tarde, depois dos mil remoques de alguns viajantes, a Guarda-moria da Alfândega, o Amanuense da Policia e o medico do Porto, visitam o Cururupú.

Essa formalidade marítima está, felizmente preenchida.

Catraeiros invadem o portoló do navio.

Há uma confusão insuportável.

Reina um balburdia ensurdecedora.

Todos falam e ninguém se entende.

Que lufa-lufa, que zumzum, que anarchia!

Parece estarmos numa grande feira...

Minha bagagem é solicitada, a cada momento.

Meu nome pronunciado, a cada instante.

Não sei a quem attender nem para onde me virar.

Outros passageiros, como eu, se vêm atorduados pela insistência cavilosa do pessoal da arrelia.

É a conquista do frete para a percepção dos nickeis.

Cerro ouvidos ás lábias dessa enxurrada de carregadores.

Offereço minhas malas aos cuidados de modestos tripulantes do Santa Maria.

Faço despedidas a bordo. E preso á bondade obsequiosa de amigos communs, deixo-me transportar no Augusto Severo, excellente escaler da Alfândega. 

No caes Tavares de Lyra acolhem-me parentes e amigos.

Trocam-se cumprimentos.

Retribuem-se abraços.

Ahi vem o bond que nos conduz á Cidade Alta, rasgando primeiramente uma linha recta á famosa avenida que lembra, junta ao caes, num gesto de merecida homenagem, o nome augusto de patrício illustre.

Minutos depois, saltamos todos nas proximidades da Pharmacia Torres, encravada ali na praça Sete de Setembro.

Do pardieiro que lhe fica em frente é onde funcciona o governo do município, sahem nessa occasião, em promiscua camaradagem, os doutores Eloy de Souza, Sebastião Fernandes e Moysés Soares.

Os brilhantes jornalistas andam fazendo advocacia em torno das esqualidas figuras de Zetine e Brunard, indicados auctores do roubo sensacional da casa Julius von Sohsten.

Por um requinte de extrema gentileza, vêm ao meu encontro.

Saudamo-nos.

Abraçamo-nos.

Deixo-me seguir.

Busco o seio reconfortante da família.

Esperam-me, em festa, os beijos innocentes de meu querido filho pequenino.  

Eis-me restituído as caricias do lar.

Sinto-me alegre.

A alma, porém, tenho-a toda estrellada de recordações e de saudades...

......

Bôa e carinhosa Macau! Ficaste longe dos meus olhares travessos, mas perto estás do meu coração, que te é, e te será sempre, docemente agradecido.

 
 

Processos relativos aos municípios do Rio Grande do Norte [p.155] em  A Insurreição Comunista de 1935 – Natal – O Primeiro Ato da Tragédia; Autor: Homero de Oliveira Costa; 

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Em Macau são indiciadas oito pessoas, entre elas o juiz da comarca da cidade, Fabio Máximo Pacheco, todas absolvidas. Cidade portuária, Macau tinha um grande número de estivadores e salineiros, submetidos a duríssimas condições de trabalho [baixos salários, extensas jornadas, ausência de garantias trabalhistas, etc]. Em meados de 1935 é fundado o Sindicato dos Estivadores, tendo como presidente João Anastácio [mais conhecido como João Bolacha], que havia liderado algumas greves, reivindicando melhorias salariais junto à companhia de navegação. ...

A foto acima foi copiada do excelente site: www.areiabranca.wordpress.com

Posse como delegado do Sindicato dos Marinheiros, em 1962.

1 – Dr. Gentil / 2 – Pe. Ismard / 3 – Chicão (membro da comissão do Sindicato de Macau) / atrás da bandeira, sem numero – Raimundo de Bagaé secretário do Sindicato. (Raimundo Batista de Souza). / 4 – Nilo Machado, Delegado substituido. / 5 – membro da comissao de Macau / 6 – Miranda, atento ao discurso de Pe. Ismar / 7 – Zacarias Francisco Rodrigues, Delegado do Sindicato de Macau. Por traz de Zacarias, Faustino presidente do Sindicato dos Salineiros. / 8 – Zé Tavernard / 9 – Brandinho (Hildebrando Soares de Amorim. / 10 – Dandinho quixabeira (Raimundo Nonato de Oliveira). / 11 – Pascoal Fonseca de Souza / 12 – Luiz Gomes.