Notas de Viagem [De Macau e Natal], Ezequiel Wanderley [1872-1933] in Balões de Ensaio, 1919.
“O Cururupú levanta o ferro a vae preguiçosamente rasgando o seio do Piranhas. Lanço os últimos olhares para esta querida Macau que, momentos antes, minh’alma estreitára num abraço de despedida emotiva. Esqueço, no meu isolamento, as nuances da paisagem marinha e, recostado á amurada, contemplo o luzido cortejo dos amigos, dos quaes há pouco recebera o carinho confortante de u’a manifestação. Envio-lhes, de bordo, o meu adeus agradecido. Retribuem-m’o. Aceno-lhes com o chapéu. Correspondem-me. Braços erguidos, agitam lenços que lembram azas de garça ou velas pandas de jangadinhas, na travessia dos verdes mares, trazendo-me á imaginação este bellissimo poema de Guimarães Passos: Teu lenço
Este teu lenço que possuo e aperto De encontro ao peito, quando durmo, creio Que hei de mandar-te, um dia, pois roubei-o E foi meu crime, em breve, descoberto.
Lucto, porém, a procurar quem, certo, Posso servir-me nisto de correio... Tu nem sabes que grande é o meu receio, Se em caminho te fosse o lenço aberto.
Porém, ó minha vivida chimera, Fita as bandas que eu moro, fita e espera Que, enfim, verás em trêmulos adejos...
Em cada ponta um beija flor pegando, Ir pelo espaço o lenço teu voando, Pando, enfunado, côncavo de beijos...
Rio a fóra. Chegam-me ainda aos ouvidos, quase extinctas, as harmonias da Charanga Macauense, contrastando com a minha saudade. Declina a tarde. “Lágrima de sangue do poente”, o sol despede-se do mar enviando-lhe caricias mornas. Todo azul, na mudez dos contemplativos, o céu parece estampar-se no espelho das aguas. Vento largo. O Cururupú accelera a marcha. Impelle-o o movimentar das hélices revoltadas contra a fúria das vagas. E, distantes da terra que abrira para nós as portas de ouro do coração amigo, augmenta a saudade – dôce companheira dos visionários do Sonho, dos eternos beduínos da Ventura... Ao abrir da noite... Há rutilação indecisa das estrellas que me fazem evocar estas doiradas relíquias de Francisco Mangabeira, adorável poeta bahiano:
‘Por causa do marinheiro Foi que Deus creou os soes, E se tornou pharoleiro, Enchendo o céu de pharóes.’ Alto mar. O navio modifica a marcha. Um moço de convez, cavador de gorgetas, annuncia que o Cururupú vae deitar ferro. Effectivamente. Distingue-nos a gentileza do commandante Melchisedeque, que nos traz seus cumprimentos. Cessou o coaxar da machina. No Lamarão, vagas se arqueam, se levantam e se arrojam, violentas, sobre o dorso de ferro do navio acorrentado. Alguns passageiros, amofinados pelo enjôo, recolhem-se aos beliches. Outros reagem contra o mal, palestrando no tombadilho, á son nise, em suas chaise-longues. Perto de mim esta o sr. Boanerges. É um padre em projecto, mas de espírito já meio saturado de incenso e mirra dos altares. O novo seminarista com uns trechos de latim e alguns versículos do Evangelho, rebate as doutrinas do espiritismo, com as quaes vem impregnando o ambiente um moço irrequieto e palrador. Julgo bacharel, como toda gente, o antagonista do clérigo imberbe. No entanto, trata-se, apenas, do propagador ardoroso do Elixir de Mururé, que sem comprometter seu mandato commercial, aproveita as férias da viagem para espargir ás idéas controvertidas de Allan Kardec. Não há duvida, o sr. Álvaro Silva é um interessante bohemio, que, a não existir, devia ser inventado... Sôam vinte horas. A sineta de bordo convida-nos á mesa. Há uma exclamação de alegria. Levantámo-nos todos. Eis-nos em sala de refeições. Bebo constrangidamente uns goles mornos de café ordinário. Volto ao tombadilho. Faz frio... Embrulho-me na minha capa de borracha. Espreguiço-me numa cadeira de vime. Volvo os olhos para o céu. Contemplo o scintillar das estrellas. Admiro a palpitação dessas reticências de luz. Dentro de minha phantasia de poeta, opera-se o milagre das suaves evocações... Scismo... Passeiam-me á imaginação as paredes de meu tugúrio abandonado. Penso naquelles elegantes saraus de fevereiro, em que a mulher macauense, com a soberania de sua graça, imprimira a nota chic no carnet das ruidosas diversões carnavalescas, agradáveis ao espírito, mas prejudiciaes ás algibeiras... Como que ainda me sinto preso á convivência dos illustres confrades da Folha Nova. Recordo a serenata maviosa com que, véspera da partida, me despertára a alegria saltitante de amáveis rapazes, credores insolvíveis de minha estima. E por fim, parece-me ouvir o Gil Avelino e o Epiphanio Noronha dizerem balladas de amor, ao som ameno dos violões gementes, com que o Constancio de Souza e o Polycarpo Bezerra quebravam o silencio dessa noite estrellada, suggestiva, mysteriosa... Maguados pelo sentimento da saudade, como é bom recordarmos os dias que se foram!...
Emcima, no convés, recrudesce a tagarelice, entre os passageiros. Ouço-os em silencio. Fala-se de política. Surgem palpites sobre o ministério. Discute-se a possibilidade de um empréstimo aventado pelo titular da pasta da Fazenda, com o apoio immediato e forte do Presidente eleito. Divergem as opiniões. O general Pinheiro Machado e o conselheiro Ruy Barbosa constitúem o alvo maior da conversação. Renovam-se commentarios, em torno de velhas idéas. Esfuziam pilherias. Enflora-se-me aos lábios pallido sorriso. Consulto o relógio. - -Vinte e uma horas. Emballado pela musica das vagas, adormeço. Sonho... Desperto e vejo, como o poeta, que – ‘Vinha, ao longe, raiando a loira madrugada’.
Gonçalves Maia, uma das mais brilhantes intelectualidades pernambucanas, tecendo carinhosamente as linhas preliminares do seu Livro de Viagem, interroga a nós outros, que pouco o temos e muito o admiramos: Quem sente mais? Os que vão ou os que ficam? E, adeante, nesse adorável capitulo que o belletrista pátrio denominára Alma Dorida, vamos encontrar essas jóias inestimáveis que, de há muito, guardamos na memória: ‘Dizem que as arvores sentem, como agente, a dôr dos golpes impiedosos’. Ouvidos de poeta têm já decifrado a sua linguagem amorosa, nas horas tranquillas em que dormem todos os barulhos da vida. Vem dessa sensibilidade intelligente a sua pena e a sua doença, quando as arrancam do solo amado. Em outro terreno, serão ellas mais frondosas? Mais bellas? Florescerão? Darão fructos? Terão o carinho das novas solicitudes, ou serão abandonadas, apedrejadas, mutilladas, infelizes? ... A duvida que persegue as arvores transplantadas de uns para os outros campos é a mesma que persegue os homens. Certamente que tudo leva na alma uma esperança, estrella que não se apaga. É a mesma que eu carrego commigo, há annos, desde que a vida se me tornou nessa folha solta cujo destino o poeta Arnaud descreve tão bem’. E fechamos o parênthese sem responder a pergunta: - - Quem sente mais? Os que vão ou os que ficam?
A caminho de Natal. O navio surprehendera-me adormecido, ao romper novamente a sua marcha. Agora invejo os que ainda ressonam. Espreguiço-me... Bocejo... Sibila um vento impertinente. Ouço cantar á surdina. Quem será? Aproximo-me. É um marinheiro. Em voz cavernosa e sentida, diz uns versos talhados á dolência do mar, que me subsistem na memória:
‘Para adormecer no rio, Junto aos pés de uma cidade, Não foi feito o meu navio Que zomba da tempestade... Larga as ancoras, desferra, Larga, larga! Deixa a terra, Iça, alonga, sem parar... Fóra sobros e cutellos! A talhar nos andarellos, A ancora toda a beijar! Deixa estas velas de prôa, Gávea grande! Todo panno!... Meu navio é uma coroa Sobre a fronte do oceano. .....................................
Venha o vento, ronque a morte, Nada temo á minha sorte, Nem te vou abandonar... Embora cresça o perigo, Não importa, irás commigo Dormir no fundo do mar’.
Ouvindo essa canção, recordo aquella noite de luz e rosas, de sorrisos de velludo e alegrias saltitantes, em que a mimosa Juracy Ramalho, no theatrinho Juventude, cantára com muita expressão e muita graça, essas mesmas estrophes portuguezas.
Estendo os olhos pela curva brumosa do horizonte. O céu como que se confunde, na delicia de um beijo de amor, com o glauco das aguas. Vencendo algumas milhas, o Cururupu segue sempre, avança muito. Eil-o a vomitar nuvens de fumo pelo cano obliquo que se nos afigura um grande charuto de aço preso aos labios massudos de um gigante de ferro. Dormem ainda quase todos os passageiros. Alguém chora! Sem duvida, alguma creança. Não me enganei: É um petiz que se não conforma com a sua installação fluctuante e reclama gottas de leite, ás solicitações do estomago. Começa a descer um neblineiro impertinente. Receioso de pilhar uma constipação, recolho-me á ante-camara. Surprehendo a dormir, na quietude de um bem-aventurado, o sr. Pereira de Sá, da casa J. Pessoa de Queiroz & Cª., praça do Recife. É meu conhecido. Á sua gentileza devo os primeiros commodos a bordo. Fizemos relações, há poucos dias. Estimámo-nos na Pensão Macau, saboreando os acepipes com que amavelmente nos mimoseava d. Innocencia. Adeante, mais outro cavalheiro. Esse é magro como um palito e vermelho como um pimentão. Sei, por informações, exercer o melhor de sua actividade no commercio ambulante. Superficialmente o conheço. Vi-o, algumas vezes, pelas ruas de Macau. Cochicharam-me haver embarcado, como por sonho, deixando em terra o coração... Éscrich, uma vez escreveu: As mulheres têm a propriedade de fazer dos homens heróes e patetas, mas quase sempre patetas... Extranho vêr que se dorme nesse compartimento reservado á entabolação das palestras e ás espiraes do fumo. O aviso prohibitivo ali está!... Mas nem por isso deixo de me estirar num sophá que se acha em disponibilidade como o meu velho amigo Onofre Pinheiro. Perto de mim, embrulhado no seu chambre de flanella escura, vejo o piano em que o Neco Alves correra vertiginosamente os dedos, quando ainda boiávamos á tona desse rio copioso e manso, eterno confidente de paixões românticas... Eis-nos fazendo a travessia de praias verdejantes. Já transpuzemos Barreiras, passamos Gallinhos, defrontamos Jacaré. Não encontrem os viciosos incorregíveis, na denominação desses logarejos, prejudiciaes palpites para o jogo do bicho. Neste momento, se me não engano, vamos atravessando Caiçara. Parece deslisamos sobre a faixa velludosa de um rio. O mar é tranqüilo. Mas, não obstante, alguns passageiros, encafuados nos beliches, continuam a fazer discursos... É uma tortura a viagem marítima para os que enjoam. Que o diga o major Antonio Pinheiro... ............ Estou alerta. Fugiu-me de todo o somno. Trabalha-me o espírito a ancia incontida de ver decerrarem-se as pálpebras do dia. Penso na família, que adeante me espera com o sorriso nos lábios, e não deslembro os amigos, que atraz deixára com a saudade no coração. Céu puríssimo, formoso. ‘Papoula rubra do firmamento’, o sol parece emergir, tremulo de frio, do seio offegante das aguas. Manhã radiosa. Volto á minha cabine onde deixára a roncar escandalosamente dois bons companheiros de viagem. Banho o rosto, aliso os cabellos. ‘Envergo’ toillete clara, leve. Tenho commigo pequeno binóculo, para melhor apanhar o labyrintho das praias amigas, beijadas a cada instante pela renda travessa das espumas. Quase todos os passageiros, recolhidos á sala dos retratos, esperam o termino desse paulificante serviço de baldeação. Só assim contam respirar, com ampla liberdade, o ar oxigenado desta risonha manhã de março agonisante. Vou ter com elles. Sento-me. Alguns patrícios conversam, commentam, criticam. Deparam-se-me o dr. Xavier Montenegro e os coronéis Xico Coelho e Faustino do Monte. Este ultimo vemo-lo dentro de sua indefectível pijama... Mais ou menos afastados de outros palradores, esses cavalheiros falam sobre salinas, arrendamentos, suspensão de contractos, programma o novo governo, etc. etc. Tem a palavra o coronel Faustino do Monte. Industrial intelligente e pratico, o operoso capitalista mossoroense não esconde os receios da desvalorisação do commercio do sal, sem o amparo protector e forte do syndicalismo patrício. Trocam-se apartes. O velho moço, coronel Xico Coelho, aproveita o ensejo para fazer humorismo e bordar ironia, por ser talvez, daquelles que, segundo o poeta acadêmico – se comprazem em mofar da gravidade da vida, dando-lhe piparotes na caraça austera. Rompem gargalhadas. O dr. Montenegro, no entanto, mantendo a costumada circumspecção de Juiz criterioso e honesto, emitte sua oppinião, expande suas idéas, sem outro interesse, a não ser o de ver prosperarem as rendas do Estado. Bello gesto de patriotismo, realmente! ...
Sôa a sineta. Desço em companhia de outros amigos á sala de refeições. Sirvo-me de uma chávena de café, morno e ordinário, como o da véspera. Transponho, depois a escada. Torno ao convés. Terminára o banho matinal com que a hygiene de bordo costuma assear a carcassa dos navios. Ponho-me a chupar philosophicamente um dos aromáticos cigarros Patria, que, ainda em Macau, me déra a gentileza captivante, mas reflectida e calma, do major Virgilio Pinheiro, da Fabrica Progresso. Estendo os olhos pela costa. - - Onde estamos? Pergunto ao coronel Xico Coelho que, gostosamente, vae saboreando as paginas de bonito exemplar da Bibliotheca Internacional de Obras Célebres. - - Em Santa Maria; disse-me elle contemplando perto a terra de seu berço. - - Sempre que por aqui passo, continuei, me apraz assistir ao conflicto rebelde do mar ululante com a jangadinha tênue e humildes pescadores que andam cavando a vida... - - E muitas vezes, a morte; accrescentou, pigarreando, o coronel delegado, do Barro Preto. Nessa occasião, o dr. Montenegro, de pé, no tombadilho, assestáva as vidraças claras de seu binóculo bisbilhoteiro, graphando nas retinas e photographia interessante daquella praia que a mão calosa do homem prodigamente enfeitára de coqueíraes farfalhantes. - - Foi ali, murmurou o bizarro escriptor das Estalactites, onde, ao influxo salutar dos carinhos maternaes, deslisaram os venturosos dias de minha juventude. Ainda me lembro, prosseguiu elle, de infinda tristeza, da profunda saudade com que de la me ausentára para o início disciplinar dos meus estudos superiores. Em compensação, porém, [falo aos meus botões] o dr. Montenegro é hoje magistrado, senhor de algumas fazendas, proprietário de magníficas salinas e dispõe, a seu talante, de luzidas patacas, por precaução, muito bem aferrolhadas...
Ondeia o vento. Volto a occupar minha cadeira onde, há pouco tempo, se refestelára um moço que se deixou abater pelo enjôo. Levo as mãos aos bolsos. Encontro, casualmente, umas tiras dactilographadas em machina Remington. É uma saudação de despedidas. Trabalhou-a meu presado amigo Eduardo Pacheco, para alvejar-me na manifestação de 29. Não podendo recital-a, com ella presenteou-me a bordo o jovem sonhador, no momento em que eu, de alma nos olhos, deixava essa hospitaleira Macau. Leio-a de um fôlego e, no meu fôro intimo, agradeço o gesto de bondade atávica do plumitivo illustre, creador que se fizera, com Argemiro Prestes, da revista Fiat Lux, de saudosa memória.
Vae alto o sol – bello apagador de estrellas, na phrase cantante e moça de Humberto de Campos. Contemplo as praias mansas que margeiam a costa. Aqui o verde ondeante do coqueiral florido. Ali, pequenas palhoças, modestas habitações de rudes homens do mar. Acolá, a frota irrequieta das jangadas, na faina incontida da pesca. E o Cururupú, no desiquilibrio habitual de ébrio fluctuante, mais e mais se distancia de Tres Irmãos, Reducto, S. José e outros pedaços queridos da costa povoada e rica. Ao divisarmos Cajueiro, chega-se a mim o Xico Araújo. Toda Macau o conhece: é o ex-vice presidente da Intendência de Areia Branca, e ex-escrivão da Mesa de Rendas estaduaes daquella villa. - - “Vê este logarejo que nos fica em frente? - - Interroga-me elle, estirando o indicador. - - Perfeitamente. - -Pois bem; ali, meu caro, proseguiu meu interlocutor, a preço de sangue, pagou, há annos, a ousadia de seus amores fáceis um ardente vassallo de Cupido. - -Deveras? - - Posso garantir. E, se quizer, accressentou o Xico, addicione essa façanha trágica ás suas Notas de Viagem. ... Pobre deus do Amor! Vem de longe prostituírem sua belleza moral dos teus sentimentos aquelles que, na ancia de desejos estuantes, não sabem resistir á palpitação insolente da carne, aos instinctos impectuosos da volúpia, ao fremito do goso, feito suprema delicia da vida... Ouve-se, pela segunda vez, o tilintar da campa. Vamos ter á mesa do almoço. Já lá está o commandante Melchisedeque, sempre amável, attencioso sempre. O major Antonio Pinheiro não comparece á chamada. Segue-lhe o exemplo o coronel Tristão de Góes. Ainda bem... São dois de menos á parcimônia dos guizados. O primeiro passeia no tombadilho o seu enjôo; o segundo, porém, deixa-se ficar no beliche, rodeando de carinhos a filha dilecta que se vae internar, em Natal, no Collegio das Dorothéas. A refeição fazemol-a nós ouvindo esfusiantes pilherias do propagandista do Elixir de Mururé, e admirando a voracidade ignóbil de certo commensal, ao devorar cebolas fritas em azeite rançoso.
No convés. Estamos a ver Touros. Informam-me ser um ponto excellente, como Maracajaú, para o regalo tonificante, nas estações marinhas. Volteio o meu binóculo. Ao longe, convida-nos á meditação e á prece uma igrejinha solitária e branca. Meia hora depois, pesam-me as pálpebras. Commodamente, estirados em possantes espreguiçadeiras, resonam o coronel Xico Coelho, o coronel Faustino do Monte e o coronel Tristão de Góes. Irra! Com tantos officiaes superiores não seria difficil fomentar uma revolução, se não para derruir as instituições republicanas do paiz, ao menos para protestar contra a parcimônia absurda e a má qualidade dos manjares de bordo. Adormeço. Ao abrir do dia... Despertamos todos. Atraz ficára nova orla de praias amenas. O dr. Montenegro, rodeado de pequenas auroras, de mimos infantis, tem para elles, a cada momento, sorrisos amenos, caricias de mel. São os mimosos filhinhos que fazem festas de amor ao querido papae. Corre célere o tempo. É outro o mar. Passámos, agora mesmo, o Cabo de S. Roque, terror dos passageiros pusillanimes. Vagas altaneiras, ondas acapelladas cortam a quilha esguia do Cururupú, que segue rumo certo. De quando em vez, faz-se interrogação: - - A que horas chegaremos em Natal? - - Quantas milhas nos faltam? - - Seremos logo visitados pelo medico da saúde do porto? - - Desembarcaremos com chuva? E os viajantes, a essas, deixam seguir novas perguntas, anceando galgar o porto desejado. Isso é muito natural, ao esperarmos debellar o enjôo torturante que nos causam a oscilação do vapor. Longe de nós, a cordilheira das ultimas praias arenosas montando guarda ao velho mar espumante e raivoso... O navio acaba de sulcar as aguas singultosas de Muriú, Porto-mirim, Jacumã, Pirangy, Barra, Genipabu e Ridinha. Fundeado agora á pequena distancia da cidade, recebe a visita protocollar do Pratico que vae fazel-o romper o coração mysterioso e profundo desse grande rio que a musa evocadora de H. Castriciano festivamente cantára em estrophes épicas e arrebatadoras. No alto da fortaleza dos Santos Reis Magos, despejam bandeiras de cores berrantes, levando ao telegrapho óptico da Sé a nova alviçareira da approximação do Cururupú. Mergulhados no immenso tumulo verde, insondável como todos os abysmos, lá estão o Gran-Pará e o Una. A um perdera a imprestabilidade da machina; ao outro arruinára a negligencia do commandante. É o que me informam. Fazendo curvas, delineando zig-za-gues, enfrentando as investidas do mar que se lhe arroja, n’uma fúria leonina, ás paredes de ferro, o navio faz-nos ver, pouco a pouco, o bello panorama da risonha Natal.
Tarde magnífica. Trapos de nuvens andam a mosquear a cúpula azul do céu. Grupos de curiosos já se approximam do caes Tavares de Lyra. Reclinados ás bordas do navio, saudamos a formosa cidade nortista. E o Cururupú, ás 15 horas, joga o ferro nagua soluçante do Potengy, onde garbosamente se ostentam o Ceará, bonito paquete do Lloyd Brasileiro, o Tymbira e o Tupy, dois elegantes vasos de guerra da marinha nacional. Os navios cumprimentam-se. Sobem e descem bandeiras, emissárias silenciosas de protestos de estima. O Cururupú apita. Corro ao beliche. Banho o rosto, friso o bigode e mudo de traje. Providencio sobre o desembarque das malas. Volto ao tombadilho. Alguns passageiros, dentro de roupas bem talhadas, envergam elegância. Em roda do vapor, fluctua pequena frota de embarcações miúdas. Os escaleres Dois Irmãos, Porto Alegre, Santa Maria, Rio Branco, Ceará, Tupy, Flor do Rio, Santo Antonio, e tantos outros, pleiteam o transporte de passageiros, para a terra, e o frete da bagagem. Catraieiros conhecidos offerecem-me serviços remunerados, gritando uma, duas, dez, vinte vezes, numa balburdia de todos os diabos: - - Patrão, diz um impando, aqui tem o Fulou do Rio, que é o bicho escalé. - - Seu majó, continúa outro, dê este ganhosinho a nós, do Ceará. - - Vossa senhoria se alembre, insiste um terceiro, que o Correio do Norte corre nagua qui só peixe. - - Seu doutou, vae ou num vae o Rio Branco, brabo, do Gonga? – interroga-me, por fim, mais um catraeiro. Estabelece-se a competência entre companheiros de officio. Rio-me aturdido por esse fervet opus prolongado por algum tempo. Mas as pequenas embarcações permanecem distanciadas do vapor ancorado. - - Que há? pergunta o coronel Tristão de Góes. - - Por quem se espera? – interroga o major Antonio Pinheiro, ao ver approximar-se um escaler em que o major João Sizenando lhe traz as bôas vindas, na sua voz de barítono constipado. - - Desembarca-se ou não? – Fala o coronel Faustino do Monte. - - Teremos de fazer quarentena? – Intervem sorrindo, o coronel Xico Coelho. E, só mais tarde, depois dos mil remoques de alguns viajantes, a Guarda-moria da Alfândega, o Amanuense da Policia e o medico do Porto, visitam o Cururupú. Essa formalidade marítima está, felizmente preenchida. Catraeiros invadem o portoló do navio. Há uma confusão insuportável. Reina um balburdia ensurdecedora. Todos falam e ninguém se entende. Que lufa-lufa, que zumzum, que anarchia! Parece estarmos numa grande feira... Minha bagagem é solicitada, a cada momento. Meu nome pronunciado, a cada instante. Não sei a quem attender nem para onde me virar. Outros passageiros, como eu, se vêm atorduados pela insistência cavilosa do pessoal da arrelia. É a conquista do frete para a percepção dos nickeis. Cerro ouvidos ás lábias dessa enxurrada de carregadores. Offereço minhas malas aos cuidados de modestos tripulantes do Santa Maria. Faço despedidas a bordo. E preso á bondade obsequiosa de amigos communs, deixo-me transportar no Augusto Severo, excellente escaler da Alfândega. No caes Tavares de Lyra acolhem-me parentes e amigos. Trocam-se cumprimentos. Retribuem-se abraços. Ahi vem o bond que nos conduz á Cidade Alta, rasgando primeiramente uma linha recta á famosa avenida que lembra, junta ao caes, num gesto de merecida homenagem, o nome augusto de patrício illustre. Minutos depois, saltamos todos nas proximidades da Pharmacia Torres, encravada ali na praça Sete de Setembro. Do pardieiro que lhe fica em frente é onde funcciona o governo do município, sahem nessa occasião, em promiscua camaradagem, os doutores Eloy de Souza, Sebastião Fernandes e Moysés Soares. Os brilhantes jornalistas andam fazendo advocacia em torno das esqualidas figuras de Zetine e Brunard, indicados auctores do roubo sensacional da casa Julius von Sohsten. Por um requinte de extrema gentileza, vêm ao meu encontro. Saudamo-nos. Abraçamo-nos. Deixo-me seguir. Busco o seio reconfortante da família. Esperam-me, em festa, os beijos innocentes de meu querido filho pequenino. Eis-me restituído as caricias do lar. Sinto-me alegre. A alma, porém, tenho-a toda estrellada de recordações e de saudades... ...... Bôa e carinhosa Macau! Ficaste longe dos meus olhares travessos, mas perto estás do meu coração, que te é, e te será sempre, docemente agradecido. |