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           Pesca de tresmalho

Fotos de Getúlio Moura. Visite: http://gmxnafoto.net

 

A pesca de tresmalho, texto de Garibaldi Dantas, in Leituras Potyguares de Antonio Fagundes, 1933. Edição fac-similar do Sebo Vermelho, Natal, 2009.

              A pesca de tresmalho differe das outras, por não ser mais a linha. Consiste em se cercar uma parte qualquer do mar onde existe peixe, com um rêde de malha, a qual depois, puxando-se para terra, arrasta os peixes que porventura estiverem no espaço por ella cercado. 

            As rêdes de tresmalho são feitas em malhas de uma pollegada ou pollegada e meia, de modo a não arrastar também o peixe novo. 

            As rêdes de tresmalho para peixe fino, como a “agulha”, têm a malha mais apertada e neste caso chamam-se mesmo “rêde de agulha”. 

            A rêde tem geralmente 200 metros de comprimento. Além desta grande quantidade de malha, possuem corda em muita abundancia, para se poder effectuar o “cerco”. 

            A côr das rêdes é avermelhada, sendo dada pela infusão da casca do mangue. 

            Na parte inferior, as rêdes levam, de metro em metro, pedaços de chumbo “as chumbadas”, e na parte superior, cortiças, de modo que, ao effectuar-se o cerco, as rêdes ficam quasi  a perpendicular no mar, evitando que o peixe se escape por baixo. As cortiças não estão collocadas tão espaçadas quanto as chumbadas: de quarenta em quarenta centímetros, mais ou menos. 

            A rêde se divide em tres partes: “a manga”, “o encontro” e “o copo”. A manga é a ponta mais estreita; o encontro é a parte que se segue á manga, sendo portanto mais larga do que esta; o cope ou copo é a parte mais larga de rêde, o centro da mesma, a que vem sempre arrastando o peixe. Nesta parte, as rêdes têm em geral de 8 a 10 metros de altura. 

            As rêdes são caras, variando de 1:000$ a 1:200$000. Pertencem quasi sempre aos patrões, ou gente mais abastada, que as entregam aos pescadores, tirando no fim da pescaria a parte que lhes cabe. 

            Na pesca existe ainda uma jangada pequena que se encarrega de espalhar a rêde fazendo o cerco do peixe.

            Na pesca existe também uma certa hierarchia. A figura mais importante de toda a pescaria, há de notar ali e acolá uma figura solitária, de pé, immovel, perscrutando o mar. Talvez pense ser algum desoccupado descançando a vista na vastidão dos mares. No entanto, é a pessoa de mais responsabilidade em toda a praia, aquella de quem em  parte depende o successo ou insuccesso das pescarias: é o “arrais”.

            O papel do “arrais” é de olhar o mar, para dizer quando há cardumes nas aguas de pescaria, donde vêm, para onde vão, e de que qualidade são. Poucas pessoas, que, não tenham visto pescarias, poderão crer que, de longe, um homem possa dizer com exatidão extraordinária quando há peixe no mar. No entanto, assim fazem os “arrais”.

            Ahi vem o cardume. O Arrais dá as ordens. Apresta-se a pequena jangada, toda cheia da enorme rêde enrodilhada. Entra mar adentro tangida pelos “vareiros”, Vence as ondas e vai avançando porém deixando cahir, sempre para traz as rêdes do tresmalho. Entram mais onde pensa o “Arrais” estar o grosso cardume e, depois de feito um verdadeiro cerco, voltam trazendo a outra ponta da rêde.

            Começa, então, o “arrasto”.

            Os pescadores do tresmalho, que sommam nove geralmente, começam a puxar a enorme rêde. Este trabalho é vagaroso.  A rêde se approxima. Muitas vezes tamanha é a abundancia de peixe que fica por demais pesada a immensa rêde. Outras, o peixe começa a pular de dentro para fora. Apparecem então os “levantadores” que, erguendo a malha com ajuda de forquilhas, impedem o peixe de saltar.

            Chega a rêde. Faz-se a divisão dos peixes conforme a importância dos pescadores. E assim termina a pesca do tresmalho.

            As “praias” podem ter de um a tres tresmalhos.

 

A pesca do voador ou do avoador           

  

Foto 1:Comunidade de Diogo Lopes na RDS Ponto do Tubarão onde se pesca muito voador.

Foto 2: peixe "voador" ou "avoadores" no processo de secagem.

Fotos de Getúlio Moura. Visite: http://gmxnafoto.net

A pesca do voador, texto de Eloy de Souza, in Leituras Potyguares, de Antonio Fagundes, 1933, Edição fac-similar do Sebo Vermelho, Natal, 2009.

          Já não são os velhos, mas sim os moços, herdeiros da bravura da raça, os que se aventuram agora na pesca, mais distante, do voador.

À hora da meia noite, durante as calmas equatoriaes, entre abril e maio, fazem-se elles de vela para tão longe da costa que a terra, ainda antemanhã, é apenas uma cinta mal esboçada no horizonte, para de todo desapparecer quando, já com o sol quasi a pino, atravessam as jangadas no lamarão banzeiro. Mantidas nessa posição, graças ao auxilio do tauassú amarrado á extremidade da pita cujo comprimento, de vinte braças, não encontra fundo, mas é bastante á manobra engenhosa, podem os pescadores espalhar á maior proximidade da embarcação o engodo destinado a attrahir os voadores; vísceras do próprio animal e qualquer substancia oleosa, contanto que seja espessa e de cheiro activo e desagradável. Momentos após, vem á tona o primeiro peixinho, provavelmente o de faro mais agudo, e quem sabe se por isso mesmo destacado pelo cardume que habitualmente vive a não pequena profundidade, na missão de explorar mar a fora as zonas de abastecimento. Parece não ser a hypothese descabida, porquanto, feita a verificação de que o alimento é apetitoso, regressa elle incontinente, voltando momentos depois e, desta vez, acompanhado de dezenas de outros, dentro em pouco multiplicados em milhares e milhares, que numa espécie de embriaguez se deixam apanhar nos gererês, pequenas redes triangulares de fácil manejo, como pede a presteza dos pescadores no enchel-as e esvasial-as, tal a quantidade que se offerece ao opportuno sacrifício.

E não somente pescam-nos os homens como se pescam elles a si mesmos, cahindo em profusão sobre as embarcações, victimas inconscientes das longas barbatanas flexíveis. Dentro em pouco, e não raramente, começam a sobrenadar em torno flocos amarellados, que uns aos outros se vão unindo na adherencia gelatinosa que lhes é peculiar, até formarem superfícies extensas, cuja trama attinge e invade barcos mais alterosos do que as humildes jangadas.

Essa substancia não é outra cousa senão producto da desova, motivo a mais, pelo cheiro que della se desprende, para attrahir ao local, com rapidez fulminante, cardumes de outros peixes, entre os quaes se destacam os vorazes dourados, notadamente, gulosos dos pequenos irmãos.

É, sobretudo, digno de nota, que as victimas indefesas da armadilha humana também não reagem contra a aggressão faminta dos peixes maiores que as vão engulindo, aqui e ali, sem disputa, entre os convivas do farto banquete.

Retornados ao porto, praieiros adextrados escalam um a um, com incrível rapidez, os esguios voadores que de suas mãos passam para as mãos das mulheres incumbidas de retirar-lhes as vísceras, salgal-os e expôl-os ao sol para que sequem convenientemente, operação esta necessária á boa conservação e agradável aspecto da mercadoria.

De todas as pescarias é essa a que reúne nas praias maior agglomeração sobre tudo de brejeiros parahybanos, que ali vão permutar durante a safra o fumo, a aguardente e a rapadura pelo voador secco, transportado de regresso nos mesmo comboios em garajaus que são como sabeis, um tecido largo de palhas de carnaúba sobre varas espaçadas, formando duas superfícies destinadas a conterem o pescado sem prejuízo do arejamento conveniente.